1 HISTÓRIA DA HIDROPONIA

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1 HISTÓRIA DA HIDROPONIA
Manual de Hidroponia
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HISTÓRIA DA HIDROPONIA
1.1 -INTRODUÇÃO
O cultivo de plantas sem solo, técnica agrícola conhecida hoje por Hidroponia, desenvolveu-se ao longo dos anos a partir das experiências laboratoriais, levadas a efeito
por cientistas determinados a identificar quais substâncias compõem as plantas, bem como quais delas fazem com que essas cresçam e se desenvolvam.
Esta técnica, a qual já é aceite por muitos como ciência, desenvolveu-se também a
partir das pesquisas laboratoriais, sôbre nutrição de plantas.
Os documentos conhecidos, mostram-nos que tais pesquisas têm seu início nos
idos de 1600. Todavia, as plantas têm sido cultivadas sem solo, há muito mais tempo.
Na verdade, desde que se iniciou a vida aquática em nosso planeta.
O crescimento de plantas hidropònicamente nas águas de oceanos, rios e lagos,
podemos dizer que datam do início da vida no planeta Terra.
E porisso, podemos afirmar que as culturas hidroponicas, precederam as culturas
no solo.
A história da hidroponia, é como a árvore de raizes profundas. Com seu tronco
firmemente ancorado no solo, mostrando sua copa exuberante, florescendo, frutificando e
reproduzindo-se, esconde, no entanto, os mais recônditos locais onde busca seu alimento
nas profundezas.
As raízes dessa história vão desde a formação dos mares rios e lagos, à China antiga. Da Arábia à Grécia de Aristóteles. Da Babilónia aos Estados Unidos. Do antigo
Egito ao povo Asteca. De Leonardo da Vinci a Joseph Priestley. De Robert Boyle a Fritz
Haber. Enfim, da Idade Antiga à Idade Moderna, e desta até aos dias atuais.
Para nosso pesar, extende-se nossa história da Primeira à Segunda Guerras Mundiais. No entanto, corre da fria Rússia aos desertos do Norte da África, do nosso Planeta
ao Espaço Sideral, e dêste, dentro em breve, para outros Planetas.
Como já dissémos, a hidroponia, como técnica agrícola, nasceu dos estudos sobre
a nutrição das plantas, razão pela qual é nosso entender, que tudo e todos aqueles que
se relacionaram e ou relacionem com estes estudos, sejam parte integrante de sua história.
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Também acreditamos, que as pesquisas e descobertas dentro da química inorgânica e orgânica, que tiveram lugar nestes últimos séculos, estão ìntimamente relacionados
com a hidroponia.
Não é nossa intenção reescrever aqui a história da agricultura ou a história da química, porém, é de nosso entender que, faz parte do conhecimento do hidroponista, saber
como começou e de onde vem a técnica que manuseia ou pretenda vir a manusear no
seu cotidiano.
Estamos cientes de que algumas vezes sairemos um pouco da linha histórica que
pretendemos transmitir ao nosso leitor.
Porém, nossa intenção é desfazer alguns mitos, ou então melhor transmitir fatos
históricos não muito divulgados, e com isto, solidificar conhecimentos esparsos.
Acreditamos ainda que conhecendo os fatos históricos que aqui relatamos, o hidroponista se tornará mais consciente das origens da técnica hidroponica, podendo assim
valorizar ainda mais aquilo que está utilizando ou pretende vir a utilizar.
Passará ainda nosso leitor a ter em mãos, informações que lhe permitirão defender
esta tecnologia, ainda tão combatida por razões meramente comerciais ou por outras oriundas do desconhecimento dos fatos reais que a ela deram origem
Procuraremos também ilustrar nossas palavras, entremeando-as com imagens que
colecionamos nestes últimos anos.
1.2 - O PASSADO
Na época Antes de Cristo, a história relata-nos que os árabes cultivavam melões
nos leitos secos e arenosos dos rios, irrigando-os com soluções de estêrco curtido, e o
mesmo processo era utilizado na Índia, para cultivar pepinos, melancias e outras verduras.
Fig. 1.1 Marco Polo (1254 a 1324)
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O cultivo do arroz na China, há milenios, é feito na água, e este processo foi-nos
relatado com detalhes, nos diários do conhecido veneziano Marco Polo.
Outro registro bastante antigo sobre o cultivo sem solo, é o dos Jardins Suspensos
da Babilónia, os quais integram as Sete Maravilhas do Mundo Antigo.
No entanto, temos nossas restrições a este registro, pois, até esta data, não podemos afirmar categòricamente que tais jardins tenham existido.
Permita-nos o leitor que expliquemos nossos motivos para tal dúvida.
É comprovado, seja por fatos históricos, seja por passagens Bíblicas, e mesmo por
ruinas existentes até hoje, a existência de Babilónia, à margem leste do rio Eufrates, cêrca de 50 Km ao sul de Bagdá, no atual Iraque.
Fig. 1.2 Jardins Suspensos de Babilónia (Aquarela mostrando como poderiam ter sido)
Os documentos mais antigos, que datam de 3000 anos A.C., falam de Babilon, que
floresceu no reinado de Hamurabi (1792 a 1750 A.C.).
Babilon foi capturada pelos Hititas em 1595 A.C., os quais mantiveram controle sobre a mesma, durante a dinastia Cassita, entre 1590 e 1150 A.C., época em que o nome
da cidade foi mudado para Babilonia, tornando-se capital central, e mais tarde, também,
centro religioso.
Sòmente no reinado de Nabupolassar (625 a 605 A.C.), da dinastia NeoBabiloniana, é que a Mesopotâmia atingiu seu maior expoente glorioso.
Credita-se a construção dos jardins suspensos, ao filho de Nabupolassar, Nabucodonosor II, que reinou entre 604 e 562 A.C.. Contam as histórias, que os jardins foram
construidos para agradar Amyitis, a esposa ou concubina do rei, que "foi trazida para a
cidade, da região das montanhas, e sentia muito tédio naquelas planícies arenosas".
Nabucodonosor morreu em 562 a.C., antes de terminar os jardins, os quais
sòmente foram concluidos em 600 a.C.
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O curioso é que, todos os fatos históricos destas épocas, estão escritos em placas
de argila, as quais foram encontradas em escavações arqueológicas, porém, nenhuma
fala da existência dos Jardins Suspensos, apesar de descreverem com detalhes tanto a
cidade, como o palácio real e dependências de órgãos de governo, centros de comércio,
além das muralhas que cercavam a cidade.
Mais curioso ainda, é que os historiadores citam os jardins, como sendo a cobertura do palácio real, pelo que deveriam ser citados nas placas encontradas.
O que temos, são acontecimentos narrados pelos historiadores gregos Diodorus
Siculos, Berossus, Strabo, e Philo de Bisâncio os quais jamais viram tais jardins.
Dizia Diodorus Siculos: " A entrada dos jardins é inclinada, como a lateral de uma
colina, e as várias partes da estrutura erguem-se umas sobre as outras, fiada após fiada.
Sôbre tudo isto, foi amontoada a terra, e nela plantadas árvores de todas as espécies, as
quais pelo seu tamanho e beleza, proporcionavam encanto a quem as observava. As
máquinas de água elevavam-na em grande abundância desde o rio, embora não pudessem ver-se".
Outra descrição diz - "O jardim é quadrado, e cada lado mede quatro "plethra"
(1 plethra ± = 100 pés ± = 30 metros) de comprimento. É formado de abóbadas em arco
apoiadas em fundações de blocos mais ou menos de formato cúbico. O acesso aos terraços da parte superior, que formam a cobertura, é feito através de uma escada".
"O jardim suspenso tem plantas cultivadas acima do nível do solo, e as raizes das
árvores ficam embebidas num terraço superior, mas não na terra. Todo o conjunto é suportado por colunas de pedra".
"Correntes de água que emergem de fontes elevadas, fluem por canais inclinados.
Estas águas irrigam todo o jardim, saturando as raizes das plantas, mantendo toda a área
úmida. Assim sendo, a grama é permanentemente verde, e as folhas das árvores crescem firmemente agarradas aos galhos flexíveis".
"Isto é um trabalho artístico de luxo real, e o detalhe mais chocante, é que o trabalho de cultivo fica acima das cabeças dos espectadores".
Diodorus Siculos, nascido em Agirium, na Sicília, também conhecido por Siculos o
Siciliano, veio para Roma cerca de 50 anos A.C., onde escreveu a sua "Bibliotheca Histórica", uma história universal com quarenta volumes.
Sòmente os volumes de um ao cinco, que tratam da história antiga, e os volumes
de onze ao vinte, que cobrem os anos de 480 a 301 A.C., é que sobreviveram.
Seu trabalho está coalhado de incorreções, desde datas a épocas inteiras, além de
estar cheio de ficções, de caráter novelesco. Também é muito difícil utilizar-se a cronologia de Siculus.
Antes da Primeira Guerra Mundial, arqueologistas alemães escavaram a área norte
das ruinas, onde era o Etemenanki, que se acreditava serem as ruinas da Torre de Babel.
Ao noroeste da cidade, acharam as ruinas de palácios e fortificações, e bem próximo, ruinas que se assemelhavam ao que era descrito como sendo os jardins.
Historiadores modernos usam o argumento de que, quando os soldados de Ale4
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xandre da Macedonia alcançaram a Mesopotamia, e viram Babilonia, ficaram impressionados, e no seu retorno, contaram muitas histórias acerca dos jardins, de suas palmeiras,
da Torre de Babel, do palácio real e dos Zigurats.
Mas, sòmente no século XX é que alguns mistérios que cercam os Jardins Suspensos começaram a ser revelados. Os arqueologistas continuam lutando para conseguir evidências, tentando chegar a uma conclusão final sôbre tais jardins, sua verdadeira
aparência, e seu sistema de irrigação.
As mais recentes descobertas arqueológicas, localizaram as fundações do Palácio
Real, as construções com abóbadas, dotadas de paredes muito espessas, e um poço de
irrigação junto ao palácio meridional.
Destas descobertas, fizeram desenhos de reconstrução da cidade, assim como
daquilo que poderia ter sido um Jardim Suspenso.
O historiador grego Strabo, afirmava que os jardins ficavam à margem do rio.
Porém, as descobertas arqueológicas colocam os Jardins algumas centenas de
metros longe das margens do Rio Eufrates, o que dá margens a muitas dúvidas.
Fig. 1.3 Babilonia - Desenho reconstrutivo de acôrdo com escavações arqueológicas
No entanto, outras escavações mais recentes, mostram paredes sólidas com cêrca
de 25 metros de espessura, junto aos bancos de areia do rio, as quais poderiam ter tido a
conformação em degraus, para formação dos canteiros dos Jardins Suspensos, o que
confirmaria os relatos dos historiadores gregos.
O sistema de irrigação dos jardins, também foi descrito com detalhes por Berossus,
sacerdote Babilonio que viveu em torno do ano 200 A.C.
Descreveu ele os jardins como:
"Um quadrado de tijolos com cerca de 120 metros de lado, e 23 metros de altura.
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A irrigação das flores e árvores, era feita com água do rio Eufrates, que era elevada dês-
Fig. 1.4 Jardins Suspensos de Babilonia - Desenho reconstrutivo de acôrdo com escavações arqueológicas
de esse até aos jardins, por um sistema de rosca sem fim, constantemente movida por
escravos que se revezavam em turnos."
"Esta água era suficiente também para formar pequenas, mas altas quedas de água artificiais, que lhes conferiam maior beleza. E nos canais condutores de água, existiam belas plantas que não eram plantadas na terra, mas que mesmo assim eram exuberantes e permaneciam sempre verdes, algumas das quais até se podiam comer".
O arqueólogo Robert Koldeway, que em 1899 descobriu o poço de irrigação junto
ao palácio meridional, concluiu que a água era elevada desde tal poço para a parte mais
alta dos jardins, por um sistema de "nora", ou "alcatruzes", chegando mesmo a esquematizá-lo.
Koldeway também verificou que várias das colunas de sustentação dos supostos
jardins, eram ôcas, deduzindo que, nos terraços por elas sustentadas, eram plantadas as
árvores, de forma que suas raizes penetravam pelas colunas, cheias de terra.
Já alguns dos historiadores gregos citados, dizem que a água de irrigação vinha
das montanhas, através de canais revestidos de pedra.
Como pode verificar-se, tudo são dúvidas e suposições.
hoje, prova a existência dos Jardins Suspensos de Babilonia.
Nada de concreto, até
Porém, muitas conclusões podem ser tiradas dentre os relatos históricos aqui descritos.
Os métodos usados nos supostos Jardins Suspensos de Babilonia, tal como foram
descritos pelos historiadores que jamais os viram, deveriam ser conhecidos à época de
Nabucodonosor entre os anos 500 e 600 Antes de Cristo, ou, no mínimo à época de tais
historiadores, onde a mais recente, seria em 200 A.C., época de Berossus.
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Sem grande admiração, tais historiadores falam de sistemas de canalização de
água e irrigação. Como consequência, é de supor-se, com total certeza, que nessas épocas já era de pleno conhecimento, que a água é fator primordial para a sobrevivência e
desenvolvimento das plantas.
Cultivar plantas em água, sem uso de solo, também já era algo conhecido, haja
visto o que disse Berossus, "E nos canais condutores de água, existiam belas plantas que
não eram plantadas na terra, mas que mesmo assim eram exuberantes e permaneciam
sempre verdes, algumas das quais até se podiam comer".
Falam também, do que hoje conhecemos como bombeamento de água, quando
dizem: "água do rio Eufrates, que era elevada desde esse até aos jardins, por um sistema
de rosca sem fim, constantemente movida por escravos que se revezavam em turnos".
Plantas produzidas em canais com água corrente?
hoje conhecemos como Sistema Hidroponico NFT.
Isto é a pura hidroponia que
O trabalho dos arqueologistas tem sido de grande importância para o conhecimento do homem, quando êste busca as suas origens.
Descobertas dêstes profissionais dedicados, trouxeram até nós reproduções de
afrescos e hieróglifos egípcios, onde se mostra, e são descritas, plantações flutuantes nas
margens do rio Nilo.
Estas plantações, provàvelmente de verduras, eram feitas num tipo de jangadas
feitas com caniços, sôbre as quais era depositada uma camada de lodo colhido no rio, e
êste conjunto era colocado para flutuar.
O lodo era mantido úmido pela água, e as raizes desenvolviam-se, atravessando
os caniços, até atingirem a superfície do rio.
Sistema semelhante seria usado em época mais recente pelos Astecas, de quem
falaremos oportunamente.
Marco Polo, de quem já falámos, também nos relatou nos seus diários, bastantes
detalhes sôbre os jardins flutuantes da China, em tudo semelhantes às plantações flutuantes egípcias.
Êstes dois relatos, são típicos exemplos do que hoje chamamos de Sistema Hidroponico de Leitos Flutuantes normalmente usados até hoje.
Nascido em Estagira, na Macedonia, no ano de 384 A.C., Aristóteles, mais conhecido como Aristóteles de Estagira, após a morte de seu pai, Nicomano, médico do rei Amintas, fixou residência em Atenas, onde se tornou aluno de Platão em 367 A.C., ouvindo
suas lições durante vinte anos.
Quando Platão morreu, em 347 A.C., Aristóteles mudou-se para Atarnéia, na Mísia,
onde se casou. Sua mulher, parente do rei Hermias, propiciou sua entrada para a côrte.
Em 343 A.C., tornou-se preceptor do então jovem Alexandre o Grande, na côrte do
rei Filipe II da Macedonia.
Em 335 A.C., retorna para Atenas, onde funda sua própria escola, o Liceu de Atenas, também denominada Escola Peripatética, porque o mestre ministrava suas aulas
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passeando com os alunos.
Após a morte de Alexandre Magno em 323 A.C., foi duramente perseguido pelos
gregos anti-macedonianos, vindo a ser condenado à morte pelo Areópago (Tribunal Supremo de Atenas), após um refúgio na ilha de Eubéia.
Sua extensa obra filosófica, pela qual se tornou famoso, é bastante conhecida, porém, seu trabalho científico, foi tão ou mais importante ainda.
Escreveu a "Historia Animalium", onde registrou a descrição de mais de 400 espécies animais, incluindo o homem, fazendo nesta obra a primeira tentativa de classificação
dos animais.
Seus outros trabalhos, incluem "de Partibus Animalium (das Partes dos Animais),"de Generatione Animalium" ( da Reprodução dos Animais), e "de Motu Animalium"
( do Movimento dos Animais), e, nestes trabalhos, Aristóteles explica porque os animais
"são do jeito que são".
Seu trabalho nesta área, é considerado o primeiro tratado da história da humanidade, sôbre anatomia e fisiologia comparadas,.
Fig. 1.5 Aristóteles de Estagira (384 a 322 A.C.)
Foi o primeiro cientista que classificou os animais em dois grandes grupos: os vertebrados, a que denominava como "sanguíneos", e os invertebrados, que denominou como "exangues".
Muito poderíamos falar sôbre este homem, verdadeira personificação do espírito
filosófico e científico, cujos tratados jamais escreveu de punho próprio, provindo êstes de
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anotações de seus alunos e ouvintes.
No entanto, apesar de pouquíssimo divulgado, e de grande interesse para nós, é
que Aristóteles, conhecido amante da natureza, criou na sua escola o primeiro Jardim Botânico de que se tem conhecimento, apesar de pouco ou nada ter "escrito" sôbre as plantas.
Não sabemos ao certo se a criação do Jardim Botânico foi para ele próprio se dedicar ao estudo das plantas, ou se o fez para que seus alunos levassem a efeito tais estudos, o que realmente aconteceu através de Teofrasto.
Teofrasto de Ereso, cujo verdadeiro nome era Tirtamo, denominado Teofrastus (o
divino preletor), nasceu em Ereso, na ilha de Lesbos, no ano de 372 A.C..
Grande filósofo, foi aluno de Aristóteles no Liceu de Atenas, do qual assumiu a direção após a morte de seu fundador, pois era seu mais proeminente aluno.
Provàvelmente influenciado por seu mestre, dedicou a maior parte de seu trabalho
no estudo das plantas, o qual deu origem às suas obras "Historia Plantarum", e "Causis
Plantarum".
"Historia Plantarum", é uma introdução em nove volumes, nos quais o autor se dedica principalmente à descrição e classificação das plantas.
Encontramos nesta obra, várias secções dedicadas ao reconhecimento das plantas
e seus diversos formatos, diferenças entre os vários tipos, tais como árvores, arbustos e
Fig. 1.6 Teofrasto de Ereso (372 a 287 A.C.)
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herbáceas, e uma série de outros tópicos, abrangendo hábitos, localização geográfica e
utilidades mais importantes.
Em "Causis Plantarum", obra em seis volumes, encontramos a teoria que apóia os
fatos da obra anterior.
Aqui, Teofrasto explica os efeitos que as ações da natureza causam nas plantas,
como condições climáticas e condições de solo, comparando-as às ações do homem sôbre as mesmas, como irrigação, adubação e manejo.
Também fala de suas conclusões sôbre a impossibilidade de sobrevivência das
plantas na ausência da água, e da viabilidade temporária ou permanente de que sobrevivam e se desenvolvam em água pura, sendo que as melhores condições apresentam-se
com água adicionada de resíduos de terra.
Em seu trabalho, muito à semelhança de Aristóteles em "Historia Animalium", Teofrasto classifica as plantas em Árvores (as plantas próximas da perfeição), Arbustos e
Sub-Arbustos (Pequenas plantas com caules e ramos lenhosos), e Plantas Herbáceas.
Também divide as plantas em Raízes, Caule e Ramos. Não considera como essenciais, as folhas, as flores e os frutos, pois que são de renovação anual, e não permanentes.
Considera que as plantas são constituídas de substâncias elementares, como seiva, fibras e carne ou cerne, e afirma ainda, que as partes fundamentais são comuns
a todas as plantas, sendo que o seu arranjo e aparência, fornecem as bases para sua
classificação.
Tanto o sistema de Aristóteles quanto o de Teofrasto, formaram o alicerce da atual
ciência por nós conhecida como Botânica. Até mesmo os têrmos usados por ele para
descrever partes das plantas, são usados até hoje.
O conceito de flor (anthos) que utilizou, como sendo a parte da planta que rodeia e
protege os frutos, qualquer que seja sua aparência, é usado até hoje, como são usados
também os conceitos de folhas simples e compostas, e o de Pericarpo (perikarpion), como sendo a cobertura que protege as sementes.
O trabalho de Teofrasto, proporcionou a cientistas posteriores, como a Carolus Linnaeus (ou Carl von Linné - 1707 a 1778), o estabelecimento do sistema de nomenclatura
biológica para plantas e animais, que êste descreve no seu livro "Species Plantarum"
(1753), adotado até hoje.
No entanto, a classificação de plantas de Teofrasto, é artificial, ou seja, considera
as plantas e suas partes, isoladamente, não se atendo às condições ambientais em que
se desenvolvem, e tampouco à sua utilidade para o ser humano, para outros animais, e
mesmo para outras plantas.
Os títulos dos nove livros que compõem o "História Plantarum" de Teofrasto, são:
III III IV V-
Das Partes Das Plantas E Sua composição. Da Classificação
Da Propagação Especialmente Das Árvores
Das Árvores Silvestres
Das Árvores e Plantas Em Especial As De Distritos e Posições Particulares
Das Madeiras de Várias Árvores E Suas Utilidades
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VI - Dos Sub-arbustos
VII - Das Plantas Herbáceas, Outras Que Não As Coronáreas: Plantas De Vaso E
Ervas Silvestres Similares
VIII - Das Plantas Herbáceas
IX - Dos Sucos Das Plantas E Das Propriedades Medicinais Das Ervas
Na história da botânica, e indiretamente na história da Hidroponia, há dois nomes
do mundo antigo que se destacaram: o de Teofrasto de Ereso, e o de Dioscorides de Anazarbo.
Pedanios Dioscorides, nasceu em Anazarbo, na Cilicia - Ásia Menor, no ano 20
D.C., e foi estudante de medicina e farmácia na escola de Areios, em Tarso.
Seu grande trabalho foi a escrita de um tratado sobre a descrição e uso de drogas
medicinais obtidas de plantas, nos anos de 60 a 78 D.C., cêrca de 400 anos depois de
Teofrasto.
Sua obra, composta de cinco volumes, intitulada "De Materia Medica", foi a primeira farmacopéia sistemática que se conhece, e contém a descrição de cêrca de 600 plantas, além de 4740 utilidades médicas e receitas de medicamentos.
Infelizmente, sua obra tão logo foi publicada, ficou perdida no Ocidente, e jamais foi
reintroduzida.
No entanto, foi integralmente preservada pelos Árabes, que a editaram várias vezes, e a utilizam até hoje.
Parte de seu trabalho,sòmente começou sendo superado nos anos 1400, pelo muito conhecido Philippus Aureolus Paracelsus cujo verdadeiro nome era Theophrastus
Bombastus von Hohenheim, médico e alquimista suíço, que viveu entre 1493 e 1541.
Fig. 1.7 Pedanios Dioscorides recebendo a mandrágora das mãos da Deusa das Descobertas
Ilustração do manuscrito em Latim do livro "De Materia Medica"
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No prefácio de seu trabalho, diz Dioscorides ter viajado muito com o exército romano, mas não é claro quanto ao ter feito isso na função de médico ou como farmacêutico.
É de se acreditar que o fez com ambas as atribuições.
Há muitas evidências, de que viajou tanto dentro como fora das fronteiras do Império Romano pelo que teve grandes oportunidades para conhecer e estudar os mais variados tipos de plantas.
Dioscorides sempre se considerou médico, e seu trabalho contrasta muito com o
de seus predecessores, que eram médicos, mas também farmacêuticos (Pharmakolopoi)
ou ervanários, também chamados de "cortadores de raizes" (rhizotomoi). No entanto, na
sua profissão de médicos, todos usavam plantas, em vários graus de prática ou educação.
Os cinco volumes de "De Materia Medica", cada um com seu prefácio próprio são:
Livro I - Aromáticas (ou Temperos), Óleos, Pomadas, Árvores e Arbustos (líquidos, resinas e frutos)
Livro II - Animais, Partes de Animais e Produtos, Cereais, Ervas de Vaso e Ervas
Fortes
Livro III - Raizes, Extratos, Ervas e Sementes
Livro IV - Ervas e Raizes Não Discutidas Antes
Livro V - Vinhos e Minerais
A descrição e classificação de plantas que estudou, segue sempre a mesma ordem
de características e descrições com elevado grau de detalhes em todos os sentidos, ou
seja:
1 - Nome e sinonimos se existirem
2 - Habitat
3 - Descrição física
4 - Propriedades como droga
5 - Utilidade médica
6 - Efeitos colaterais
7 - Dosagens recomendadas
8 - Métodos de colheita, armazenagem e conservação
9 - Detecção de possíveis adulterações
10 - Usos veterinários
11 - Utilidades mágicas ou não médicas
12 - Habitat específico e Onde a planta pode ser encontrada
Na sua obra, surge-nos sempre uma pergunta:
dizer quando fala das propriedades das plantas?
O que de fato Dioscorides quer
A lista dessas propriedades para cada planta, é longa. Uma descrição genérica
inclui aquecimento, pacificação ou amolecimento, adstringência, propriedades diuréticas,
secagem, cozimento, apuração, diluição ou afinamento, indução de sono, relaxamento,
limpeza, endurecimento, e, poder alimentício.
Na sua classificação de plantas, Dioscorides lista todas as propriedades associadas a cada planta em particular, levando-nos a uma miríade de combinações possíveis,
pelo que sua classificação é considerada natural.
A riqueza nos detalhes de seus livros, mesmo os traduzidos para o Latim e especi12
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almente para o Árabe, forçou-nos a transmitir ao nosso leitor parte deles, mesmo sabendo
que estamos pecando na extensão de nossas palavras, que poderão à primeira vista parecer fugir ao nosso assunto principal.
Fig. 1.8 Planta e seus detalhes - Ilustração do manuscrito em Latim do livro "De Materia Medica"
Fig. 1.9 Pedanios Dioscorides e as Legiões Romanas
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Fig. 1.10 Pedanios Dioscorides e um aluno - Manuscrito em árabe do livro "De Materia Medica"
Ilustração de Yusuf al Mawsili - Mosul – 1228
Porém, o legado que nos ficou de Dioscorides, é de tal maneira valioso, que ainda
hoje, em toda a Europa, suas informações detalhadas e ensinamentos profundos, são a
base dos tratamentos fitoterápicos para cura de muitos males que afetam o ser humano.
Como se isso não bastasse, fazem parte de seu legado as informações referentes
às condições ambientais necessárias à produção de ervas medicinais e espécies aromáticas em ambientes controlados, pelas diversas variantes da técnica Hidroponica.
Muitos estudiosos alegam que as ervas que citámos, produzidas hidropònicamente,
não possuem os "elementos essenciais" que lhes conferem o paladar, o aroma, e as características curativas.
Isto não é a realidade. Não é determinado solo que proporciona as características
necessárias ou buscadas, e sim, as condições ambientais e nutritivas que proporcionamos a tais plantas, que fazem com que as atinjamos.
O ser humano traz dentro de si, uma imensa capacidade destrutiva, que tanto atinge seu meio ambiente, quanto o que estiver à sua volta. Consequência disso, quem sabe, dentro em pouco, seremos obrigados a procurar medicamentos naturais, partindo de
espécies vegetais produzidas hidroponicamente.
Será uma grande responsabilidade que os hidroponistas deverão assumir, e para
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tanto deverão estar devidamente preparados.
Eis porque demos aqui grande valor ao trabalho de Dioscorides, embora êste, diretamente, não nos tenha dado nenhuma informação possível de ser considerada como
parte direta da História da Hidroponia.
Fig. 1.11 Videira com frutos e detalhes - Manuscrito em árabe do livro "De Materia Medica"
Ilustração de Yusuf al Mawsili - Mosul - 1228
Muito antes da ascensão do império Asteca, o hoje Vale Central do México já era o
centro de uma civilização altamente desenvolvida.
Uma bacia bastante fértil, o vale localiza-se a cêrca de 2.400 metros acima do nível
do mar, e no seu centro, existem cinco lagos que se conectam naturalmente, nos quais
existem algumas ilhas pantanosas.
Entre os anos 100 e 650 D.C. o norte do México era dominado pelo povo Tolteca,
reunido à volta da cidade conhecida como Teotihuacan, a qual era o centro de um estado
político, religioso e económico altamente poderoso.
Com o declínio de Teotihuacan o povo Tolteca migrou do norte para o México Central, onde estabeleceram um estado de conquista.
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Aqui, a civilização Tolteca atingiu o seu auge entre o século X e o século XII.
No século XIII, uma série de bandos de guerreiros vadios, os Xiximecas, cuja característica comum era o falarem o idioma Nahuatl, invadiram o vale.
Fig. 1.12 Planta de mostarda com sementes e detalhes - Manuscrito em árabe do livro "De Materia Medica"
Ilustração de Yusuf al Mawsili - Mosul - 1228
Conquistaram várias cidades Toltecas, como Atzcapotzalco, e fundaram outras,
como Texcoco de Mora.
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Os Xiximecas, gradativamente, combinaram suas tradições culturais, com aquelas
dos Toltecas, iniciando assim a antiga civilização Asteca, cuja estrutura social, economia
e artes, chegariam ao seu expoente máximo durante o chamado Ultimo Império.
O grupo que se acredita tenha fundado o Império Asteca, foi o dos Mexicas, em
meados do século XIII.
Este grupo, formado por caçadores, e o último a chegar ao vale, foi empurrado pelos grupos já estabelecidos, para duas ilhas no lado ocidental do lago Texcoco, um dos
cinco lagos do vale.
Os Mexicas acreditavam numa lenda, pela qual, deveriam estabelecer uma grande
civilização num local pantanoso, no qual deveriam primeiramente ver um cacto crescendo
das pedras, tendo sôbre ele uma águia empoleirada.
Quando chegaram ao lado pantanoso da praia do lago Texcoco, seus sacerdotes
proclamaram ter tido a visão do cacto com a águia, afirmando que haviam chegado ao
seu destino.
O local acabou se transformando num ponto estratégico, apresentando boas fontes
de alimentos e águas para transporte fluvial.
Os Mexicas iniciaram sua vida nesse local, dedicando-se à agricultura de sobrevivência, e em 1325, numa das ilhas do lago, fundaram a cidade de Tenochtitlan.
Para manterem segurança contra invasões de outros grupos, durante 100 anos
pagaram tributos a grupos vizinhos mais poderosos, especialmente aos Tepanec, da cidade-estado de Azcapotzalco, a quem também serviram como mercenários.
Pelo crescimento de sua população, os Mexica também cresceram tanto militarmente, quanto em sua organização civil, e lentamente foram-se revoltando contra os Tepanec, pelo que passaram a controlar parte dos territórios das margens do lago.
Por volta de 1427, os Mexica de Tenochtitlan, formaram uma tríplice aliança com
as cidades-estado de Texcoco e Tlacopan (hoje Tacuba).
Sob o comando do governador dos Mexicas, Itzcoatl, seu sucessor Montezuma I, e
o governador Texcocano, Netzahualcoyoti, os três estados iniciaram uma série de conquistas, pelas quais vieram a estabelecer seu império, que se estendia desde o México
Central, até às fronteiras da Guatemala.
Estas conquistas incluíram várias cidades-estado e grupos étnicos, os quais foram
forçados a pagar tributos à aliança.
Nesta época, Tenochtitlan assumiu o poder dominante dentro da tríplice aliança.
A base da economia Asteca foi a agricultura.
As terras das ilhas eram muito escassas, se bem que férteis, e as que foram conquistadas às margens do lago, embora também férteis, não eram suficientes para produzir
alimento na quantidade necessária à sua população crescente.
Para tornar as terras das margens mais férteis, mesmo sendo nas encostas de colinas à volta do lago, os Astecas desenvolveram sistemas de irrigação, e formaram terra17
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ços em curvas de nível, passando a usar fertilizantes naturais para enriquece-los.
Porém sua mais importante técnica agrícola, desenvolvida antes de terem conquistado as terras das margens do lago, foram os "chinampas", também conhecidos como
"hortas flutuantes".
Fig. 1.13 Gravura mostrando Chinampas
Estes eram pequenas ilhas flutuantes, criadas artificialmente, sobre as quais plantavam verduras, milho (sua principal base de alimentação), arbustos frutíferos e flores.
Sua construção começava pela montagem de grandes jangadas feitas com feixes
de junco e caniço, firmemente amarrados uns aos outros.
Após serem colocadas a flutuar, eram cheias com terra lamacenta e altamente adubada, retirada do fundo do lago, que era muito raso, formando assim um substrato.
Essa terra, onde eram feitas as plantações, mantinha-se bastante úmida, pois a
água onde flutuava o chinampa, irrigava-a por capilaridade.
As raízes das plantas cresciam, atravessavam a camada de terra e os feixes de
caniços, e atingiam a água. Conforme a planta, continuavam a desenvolver-se, até finalmente atingir o fundo do lago, onde se ancoravam.
À medida que a terra se ia exaurindo em nutrientes, outra camada era colocada, e
a jangada ia afundando, até que atingia o fundo do lago, formando uma ilha permanente.
Então, para evitar o desmoronamento da terra para dentro do lago, no início da
formação do chinampa, eram plantadas mudas de salgueiro em toda a sua volta.
As raizes dos salgueiros iam se desenvolvendo até o fundo do lago, e após se an18
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corarem, passavam a formar as árvores, que evitavam o desmoronamento da "ilha artificial", além de servirem como quebra-ventos e de propiciarem sombreamento para as plantas mais delicadas.
Antes de ficarem ancorados ao fundo do lago, os chinampas eram relativamente
móveis, e usavam-se mais para o preparo de mudas de plantas, além de plantação de
algumas verduras e espécies florais.
Diz-se que, em dias de feira, estes eram arrastados para as margens, e a colheita
era feira no momento da venda.
Os chinampas iam sendo construídos uns ao lado dos outros, emendando-os, e
entre eles, formavam-se canais, por onde os agricultores se deslocavam com barcos de
fundo chato, para atingirem suas plantações.
O sucesso desta técnica passou então a ser utilizado como um processo de drenagem nas margens pantanosas do lago.
Aqui, plantavam-se carreiras paralelas de salgueiros, e quando atingiam altura adequada, construia-se um chinampa flutuante e suficientemente longo, entre cada par de
carreiras de árvores.
Retirava-se então a terra do brejo e acumulava-se esta sôbre o chinampa, formando-se camadas entremeadas com galhos e caniços.
Estas camadas, escoradas lateralmente pelos salgueiros, iam afundando até encontrar camadas de solo rígidas, formando assim, leiras de terra sólida, entremeadas de
canais de água, por onde os agricultores se deslocavam com barcos.
Usando este mesmo processo os Astecas construíram pontes de ligação entre as
ilhas e as margens dos lagos.
Ora, os chinampas, eram algo semelhantes a um sistema hidroponico, ao qual denominamos hoje como Sistema Hidroponico de Leitos Flutuantes, embora sôbre isso tenhamos muitas dúvidas, as quais explicaremos oportunamente.
Em 1519, o explorador espanhol Hernán Cortéz, acompanhado de 500 soldados,
desembarcou no leste do México, em busca de novas terras e de ouro.
Aconselhado por Malinche, sua concubina, nativa sul-americana, Cortéz formou
uma aliança com os Tlaxcalans, rivais dos Astecas, e dirigiu-se para Tenochtitlan, onde à
época, governava Montezuma II, o qual vacilante quanto à maneira de enfrentar os espahois, convidou-os para entrar na cidade, para melhor conhecê-los, bem como avaliar suas
intenções.
Encontrando grandes quantidades de ouro e outros tesouros, e receoso de que
Montezuma pudesse derrotar sua pequena fôrça, Cortéz aprisionou-o.
Todos os ornamentos de ouro encontrados, foram fundidos para facilitar seu transporte, e Montezuma foi obrigado a jurar vassalagem ao rei de Espanha. Os espanhois
ainda ficaram na cidade por cêrca de seis meses, sem oposição dos Astecas, período
este em que Cortéz regressou à Espanha.
Na ausência de Cortéz, durante uma cerimonia religiosa, o oficial Pedro de Alvará19
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do, massacrou 200 nobres Astecas.
Fig. 1.14 Canais de água entre chinampas atuais - Xochimilco - México
Fig. 1.15 Maquete mostrando a construção de chinampas de drenagem de pântanos
No retorno de Cortéz, os Astecas revoltaram-se, expulsando os espanhois de Tenochtitlan, destruíram as pontes de acesso à cidade, e caçaram o inimigo através dos canais dos chinampas, fazendo com que este se retirasse para a Tlaxcala, onde arrebanharam mais aliados nativos.
Montezuma morreu nos combates, assumindo o governo Cuitlahuac, que após
poucos meses veio a falecer por doença, sendo substituído por Cuauhtemoc um dos líderes da revolta contra os espanhois.
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Fig. 1.16 Hernán Cortéz (1485– 1547)
Voltando ao ataque, Cortéz veio a derrotar os Astecas em 1521, cujas armas simples não superavam o aço e os canhões.
Durante uma expedição a Honduras, Cuauhtemoc foi torturado e enforcado. Os
espanhois destruíram então o restante dos Astecas, apoderaram-se de suas terras, e os
que sobraram, foram escravizados para trabalhar nas minas de ouro do México.
A queda de Tenochtitlan marcou o fim do Império Asteca, uma das maiores civilizações do mundo, e uma das únicas grandes civilizações nativas Americanas.
Tenochtitlan foi arrasada, e sôbre ela está hoje edificada a Cidade do México. Sua
catedral, foi erigida sôbre o Grande Templo Asteca, e o palácio do governo ergue-se sôbre onde um dia foi o palácio de Montezuma.
Porém, provàvelmente para garantir-se com fornecimento de alimentos, os espanhois não destruíram os chinampas e muitos permanecem até hoje em funcionamento, se
bem que em número muito reduzido.
Descendentes dos Astecas ainda cuidam da agricultura chinampeira, e na sua
maioria produzem flores.
Ao correr do tempo, grande parte dos chinampas à volta da Cidade do México foram aterrados, bem como quase todo o lago Texcoco, em função do crescimento da Cidade.
A maioria dos chinampas remanescente foi bastante preservada na região de Xochimilco, uma das 16 delegações do Distrito Federal Mexicano.
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Talvez a rivalidade entre Xochimilco e a Cidade do México-Tenochtitlan, rivalidade
essa que existe desde o século XIV, época em que a primeira foi conquistada e dominada
pelos Astecas, para dela serem sustentados por seus produtos agrícolas, tenha causado
certa desatenção das autoridades Mexicanas para com esta bela região.
Porém, aos 11 de Dezembro de 1987, a UNESCO inscreveu Xochimilco na lista
dos Monumentos Pertencentes à História da Humanidade.
Os fatos históricos que aqui relatamos, embora um pouco extensos, dão-nos antes
de tudo uma compreensão melhor da situação que levou toda uma civilização a buscar
soluções para sua sobrevivência.
Sem dúvida que esse deve ter sido um processo relativamente lento, cheio de tentativas e coalhado de erros, ao longo do qual adquiriram uma série de conhecimentos de
alto valor.
Analisemos as dificuldades dêsse povo através do que relatamos, e comparemolas com situações semelhantes do mundo atual.
Não estarão os habitantes de muitas regiões de nosso planeta, ou até mesmo de
nosso pais, esperando demais para que alguém lhes resolva o problema de alimentação,
sem no entanto enfrentar sèriamente seu problema, e buscar suas próprias soluções?
Os Astecas buscaram soluções, e encontraram-nas. E tais soluções, ainda são
válidas. Tanto, que formaram, dentro de certos limites, as bases para uma tecnologia
mais moderna, que é a Hidroponia.
Porém, se analisarmos os fatos históricos com algo mais de atenção, fica-nos uma
pergunta. Será que esse povo, sediado ao norte do México, não se sabe precisamente
originário de onde, teve de descobrir seu processo agrícola, ou já era dono do mesmo?
Afinal, processos muito semelhantes, e muito mais próximos do que é hoje o Sistema Hidroponico de Leitos Flutuantes, existiam no Egito e na China, em épocas muito
anteriores.
Eis porque cabem aqui algumas restrições quanto à semelhança ou mesmo quanto
às conclusões de que os chinampas eram hortas flutuantes comparáveis ao atual sistema
hidroponico já citado.
Os relatos dos escrivães da expedição de Cortez falam dessas hortas e dêsse sistema agrícola com grande admiração, pois jamais na Europa haviam visto ou experimentado sistema agrícola tão eficiente e produtivo.
Da mesma forma, falam das cidades altamente desenvolvidas e organizadas numa
região tão distante da Europa.
Desta feita, criaram-se alguns mitos, que permanecem até hoje, e ainda são mantidos divulgados em especial por guias turísticos de Xochimilco.
Entendamos que a hidroponia é uma técnica agrícola pela qual não se utiliza o solo, e as plantas são mantidas com as raízes na água, a qual possui nela dissolvidos os
nutrientes necessários ao seu desenvolvimento.
Por essa razão ela também é conhecida como Cultura sem Solo.
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Ora, os chinampas são constituídos por um solo, formado pelo lodo do fundo dos
lagos, em camadas intercaladas com plantas aquáticas como adubação verde.
Além disso, segundo os relatos históricos, os Astecas também refertilizavam o solo
dos chinampas com fezes humanas, e regulavam a fertilidade dos mesmos através de
rotação de culturas.
Também não podemos afirmar com segurança que os chinampas eram hortas flutuantes que em dias de feira eram arrastados para as margens dos lagos para comercialização dos produtos.
Talvez isso acontecesse no início da construção dos mesmos, e mesmo assim,
devemos entender que eram consideravelmente pesados para isso, pois que suas dimensões giravam em torno de dez metros de largura por até cem metros de comprimento.
O que na verdade podemos afirmar, é que eram um sistema que se desenvolveu
para drenar as águas dos lagos e de suas margens pantanosas, com a finalidade de aumentar as áreas agricultáveis disponíveis.
Os canais entre os chinampas eram suficientemente largos para a passagem de
até dois barcos simultaneamente, e eram na verdade utilizados para a movimentação entre os mesmos, e para o escoamento da produção agrícola.
É preciso lembrar que os Astecas não conheciam a roda, e as cargas eram movimentadas em sacos ou cestas carregadas nas costas dos agricultores. A movimentação
dessas cargas em barcos facilitava o seu trabalho.
Os lagos também eram povoados com peixes, e os canais lhes facilitavam não só a
pesca, mas também a caça de aves aquáticas.
Consideremos também alguns outros aspectos locais, que nos podem mostrar até
onde este povo era desenvolvido em técnicas agrícolas.
As águas dos lagos eram muito salinas, e essa salinidade, até certo ponto era regulada pelas águas do degelo das neves das montanhas vizinhas, que às vezes causavam cheias desastrosas.
Assim, desenvolveu este povo a construção de diques em pedra, de grande largura
provistos de comportas reguladoras, separando as águas mais salinas de alguns lagos
das águas mais doces.
Estes diques serviam também como vias de circulação de pedestres, e sôbre eles
também montavam hortas usando como solo o lodo retirado do fundo dos lagos.
Após a destruição dos Astecas, Cortez desmantelou estes diques para usar as pedras na construção da nova Cidade do México, deixando as águas livres para inundar e
tornar férteis terras circunvizinhas.
Na verdade, ele destruiu tais terras, salinizando-as com as águas salinas dos lagos.
Assim é que muitos chinampas tiveram que ser reconstruídos, pois eram a base
para alimentação dos espanhois.
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Mesmo assim, embora se diga que Cortez não destruiu os chinampas e a agricultura chinampeira, ele provocou em grande escala a sua destruição, da mesma forma como
destruiu toda uma civilização e sua cultura tão avançada.
Como dissemos, não vemos nenhuma semelhança dos chinampas com alguma
técnica ou sistema hidroponico.
Mas esse mito foi criado, e acreditamos irá permanecer por anos e anos.
Quanto a Cortez, deixamos a cargo do leitor pesquisar um pouco mais a história, e
formar suas próprias opiniões.
No decorrer da História, encontramos homens que se dedicaram com bastante afinco, aos problemas de nutrição de plantas, e sempre chegaram a uma conclusão: Sem
água, não há plantas.
Eis porque entendemos, como já dissemos anteriormente, que fazem parte da História da Hidroponia, tudo e todos aqueles que através dos séculos nos mostraram e ou
comprovaram que a água é fator primordial na sobrevivência e desenvolvimento dos seres do Reino Vegetal.
Por exemplo, qual a relação entre Leonardo da Vinci e a hidroponia?
Poucas pessoas existem que não tenham ouvido falar deste eminente personagem, no mínimo pelos seus trabalhos artísticos.
No entanto, foi um dos maiores inventores e pesquisadores da humanidade, deixando-nos uma grande herança científica.
Leonardo da Vinci nasceu no lugarejo de Anchiano perto da cidade Toscana de
Vinci, próximo a Florença, na Itália, a 15 de Abril de 1452.
Filho ilegítimo de Antonio, filho mais velho (25 anos) de Ser Piero, com Catarina,
uma camponesa menor de idade. ("Ser" - título dado à ocupação de membro da família
tradicional de Notários Públicos ou Advogados).
Ser Piero era casado com Albiera di Giovanni Amadori, que tinha sòmente 16 anos
de idade, e consta que essa era sua quarta esposa. No total, teve onze filhos.
Leonardo era canhoto, e jamais, como era costume da época, teve oportunidade
para corrigir esta característica. Talvez isto lhe facilitasse escrever de forma espelhada,
da direita para a esquerda.
Não teve chances de ir para escolas adequadas, pelo que não sabia Grego nem
Latim. Não existem evidências de que sua falta de escolaridade, tenha tido alguma relação com a sua ilegitimidade paternal.
Talvez consequência de sua pouca escolaridade, Leonardo era mais ligado às imagens visuais, e à comunicação oral, na sua linguagem de Italiano Toscano.
A falta de conhecimento do Grego e do Latim impediu seu acesso a livros que poderiam proporcionar-lhe aumento em seus conhecimentos, além dos que poderia obter
através de livros humanísticos escritos em Toscano.
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Poderíamos aqui escrever muito sôbre a vida de Leonardo, porém, a parte dela que
nos interessa mais, é referente aos últimos sete ou oito anos de sua vida.
É preciso lembrar aqui, que, em 1499, os exércitos franceses haviam invadido Milão, então sob o domínio de Ludovico Sforza, depondo-o.
Como consequência de nova guerra que eclodiu ao norte da Itália, Leonardo veio
para Roma em 24 de Setembro de 1513, onde levou a efeito muitas experiências em
Química, para o seu então patrão Giuliano di Médici, irmão do Papa Leão X.
Aproveitou aqui para desenvolver seus conhecimentos de anatomia humana, além
de se envolver na fabricação de lentes e espelhos.
Giuliano de Médici havia encomendado a Leonardo uma pesquisa profunda sôbre
como incrementar a produção agrícola de suas propriedades, cujo resultado não chegou a
apresentar, pois que, numa viagem a Bolonha, em 1515, conheceu o então rei francês
Francisco I, que o levou para a França, colocando Leonardo a seu serviço.
Fig. 1.17 Leonardo da Vinci (1452 a 1519) - Auto-retrato em carvão sobre papel
O rei instalou-o no Chateau aux Cloux, em Ambroise, à margem do rio Loire.
E aqui, Leonardo continuou sua pesquisa agrícola, cujos resultados apresentou ao
rei de França.
Em seus escritos, dizia:
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"Para se desenvolverem, as plantas necessitam de elementos minerais, que retiram do solo por intermédio da água. Sem água, as plantas não sobrevivem, mesmo que
no solo, tenham os elementos minerais de que necessitam."
"A água é como se fora a alma das plantas, assim como os elementos minerais são
como se fossem a alma do solo".
"Se conseguíssemos transmitir para a alma das plantas a força da alma do solo,
talvez não necessitássemos dele para fazer as plantas sobreviverem e se multiplicarem".
"Acredito que num futuro que a mim não pertence, isso será possível".
"É pois recomendável que se adubem as terras, e se as reguem periòdicamente,
para que se tenha uma plantação saudável e produtiva".
Seria Leonardo da Vinci um visionário? É difícil acreditar.
Porém podemos verificar que, pelas suas experiências, Leonardo já antevia, os
princípios que hoje regem a técnica hidroponica, ou seja, cultivar plantas sem solo.
Leonardo da Vinci faleceu na França, no Chateau aux Cloux, em Ambroise, em 2
de Maio de 1519.
Nos anos após o falecimento de Leonardo, não aparecem grandes estudos sobre
plantas, e tampouco registros de utilização de seus conselhos e orientações.
A partir da época de Leonardo, apesar de termos alguns avanços na botânica, os
estudiosos dedicaram-se mais à classificação das plantas, do que à nutrição das mesmas.
Provàvelmente os parcos conhecimentos de química que existiam, tivessem contribuído para uma certa paralisação nos estudos de nutrição, mas, o entanto, já era um fato
comprovado, que a água era o elemento maior para que as plantas pudessem sobreviver.
Sòmente durante a época de transição da Alquimia para a Química, e mesmo durante algumas passagens desta, em que foram feitas algumas descobertas nessa área, é
que verificamos uma retomada nos estudos de nutrição de plantas.
Porém, o conhecimento mais profundo das plantas, não só aquelas para fins alimentícios, quanto as aplicáveis à medicina, foi sempre alvo dos cientistas.
E esse conhecimento, estamos certos que faz parte integrante da História da Hidroponia, pois que é a partir dele, que saberemos lidar com as plantas hidroponicas.
É assim, ois, que achamos serem parte da História da Hidroponia, cientistas e pesquisadores que se dedicaram com afinco à ampliação dos nossos conhecimentos sôbre
as plantas, que não sejam sòmente os relativos à sua nutrição.
Citemos, ois, Luca Ghini, nascido na Croara, próximo a Imola, na Itália, em 1490, e
falecido em 1556.
Ghini formou-se em medicina em Bolonha, em 1526, onde iniciou sua carreira de
magistério universitário, e entre 1543 e 1544, transferiu-se para Pisa, a convite do GrãoDuque Cosimo I de Médici, onde fundou o "Orto dei Simplici", um Jardim Botânico dedica26
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do à cultura e estudo de plantas medicinais para uso didático na Universidade.
Luca Ghini foi o primeiro botânico a usar plantas sêcas para fins de estudos, criando o primeiro herbário do mundo.
Fig. 1.18 Luca Ghini (1490 a 1556)
Seguidor assíduo de Dioscorides, cuja obra "De Materia Medica" era seu livro didático, orientava suas aulas no sentido prático, apesar de mesmo assim também criticar o
livro pelo qual se orientava.
Após fundar o Jardim Botânico de Pisa, que foi o primeiro jardim universitário desse
tipo em todo o mundo, ainda a convite de Cosimo I de Médici, em 1544, fundou o Jardim
Botânico de Florença, o qual, em antiguidade era o terceiro do mundo, após o de Pisa e o
de Pádua.
O Jardim de Florença, também fundado para estudo e cultura de plantas medicinais, foi posteriormente transformado no Horto Experimental Agrário, dedicado ao estudo
tanto de plantas medicinais, quanto de plantas para alimentação e outras de interesse
científico.
A esta altura, os conhecimentos de Alquimia continuavam a ampliar-se, e já se vislumbrava o nascimento da Química, como ciência.
Começava nesta época também, com Paracelsus, o uso de produtos químicos para
a cura de algumas doenças.
Philippus Aureolos Paracelsuls cujo verdadeiro nome era Theophrastus Bombastus
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von Hohenheim, nasceu na Suiça em 1493, e veio a falecer em 1541.
Era médico e alquimista, e seu trabalho científico, marca a emergência da Ciência
Química, partindo da Alquimia.
Fig. 1.19 Philippus Aureolus Paracelsus (1493 a 1541)
Acreditava nos três princípios fundamentais da Alquimia Árabe, que consistiam no
mercúrio (caracterizado pela fluidez, pelo peso e pela metalicidade), no Enxofre (caracterizado pelo princípio da inflamabilidade) e pelo sal (caracterizado pelos princípios da solidez e inerciabilidade química relativa).
Paracelsus é considerado o pai da farmacologia moderna, em função do seu trabaho na cura das doenças por tratamentos químicos, e não fitoterápicos. Acreditava que
eram necessárias curas semelhantes, para doenças semelhantes.
Apesar de alquimista, concluiu que a finalidade da Alquimia, não era a produção de
ouro (a Pedra Filosofal), porém preparar misturas de medicamentos químicos para curar
doenças.
Paracelsus foi o primeiro médico que aplicou os princípios científicos na medicina,
e foi responsável pela junção da Iatroquímica e a Alquimia, pelo que como já dissemos,
se tornou o precursor da farmacologia moderna.
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No entanto, sua contribuição para a ciência foi sempre acompanhada por uma incompreensível adesão ao lado místico da pesquisa alquimista, embora fosse um grande
experimentador, sempre desejoso de melhor compreender o corpo humano.
Embora mais voltado para a medicina, foi, no entanto um dos grandes pesquisadores na área da Química, especialmente na busca e aplicação de compostos químicos puros.
Médico, Filósofo, e Naturalista, Andréa Cesalpino nasceu na Itália, em Arezo, na
Toscana, a 6 de Junho de 1519, e veio a morrer em Roma, a 23 de Fevereiro de 1603.
Seu grande trabalho, que o distinguiu acima de tudo, foi como Botânico, na Universidade de Pisa, onde foi aluno de Luca Ghini, após a morte de quem, assumiu a direção
do Jardim Botânico.
Na Universidade de Pisa, foi professor de Filosofia, Medicina e Botânica, durante
muitos anos, e com idade já avançada, foi chamado a Roma, onde foi professor de Medicina, e médico particular do Papa Clemente VIII.
Acredita-se que em Roma, também assumiu a Direção do Jardim Botânico dessa
cidade, fundado em 1556 por um de seus alunos, Micheli Mercati.
O grande trabalho de Cesalpino, que o tornou imortal, está em seu livro "De Plantis
Libri XVI", publicado em Florença em 1583, e antes de Linnaeus, é a maior obra sôbre
Botânica jamais escrita. Por incrível que pareça, este livro não é ilustrado, o que contrasta muito com a obra de Dioscorides.
Fig. 1.20 Andréa Cesalpino (1519 a 1603)
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Devemos a Cesalpino a proposta de uma inovação de ordenamento sistemático
das plantas, baseado em seu caráter biológico, que compreendia também a morfologia da
estrutura das principais partes dessas, como os aparelhos nutritivo e reprodutivo.
Crítico assíduo de Aristóteles e Teofrasto, que estabeleciam analogias entre plantas e animais, Cesalpino separou totalmente os vegetais dos animais, para efetuar a sua
proposta de classificação de plantas, que apesar de ser bàsicamente artificial, também
tinha sua parcela de classificação natural.
Cesalpino também usava plantas sêcas para seus estudos, tendo montado vários
herbários, um dos quais, e o mais importante, nos anos de 1550 a 1560, para o Bispo Alfonso Tornabono.
Este herbário, foi compilado no Jardim Botânico de Pisa, e está guardado no Museu Botânico de Florença. É composto de três volumes encadernados em couro vermelho, num total de 260 páginas, contendo 768 variedades de plantas.
A partir de Cesalpino, os caminhos da Hidroponia, como cultura sem solo, começam novamente a surgir.
Esse ressurgimento, não só aparece através de experiências com plantas, porém
mais acintosamente pelas descobertas na área da química, onde tanto os compostos
químicos, quanto seus elementos, começam a ser identificados, e a serem preparados em
quantidades palpáveis e comercializáveis.
Várias figuras de destaque na história tiveram sua participação nesta fase, inclusive
algumas que a muitos poderão parecer muito estranhas na área científica.
É o caso de Francis Bacon, nascido em Londres a 22 de Janeiro de 1561, e falecido na mesma cidade em 9 de Abril de 1626.
Filho mais novo de Nicolas Bacon, Lorde Guardião do Sêlo Real da Rainha Elisabeth I, entrou aos 12 anos para o Trinity College em Cambridge, vindo a formar-se em
Direito.
Conde de Saint-Alban e Barão de Verulan, foi ainda agraciado como Imperador da
Ordem Rosa-cruz na Inglaterra, e foi uma das pessoas que mais contribuíram para a
transmissão da sabedoria interior, sendo considerado por muitos, como pai da ciência
moderna uma vez que foi o promulgador do empirismo, ou comprovação experimental.
Foi o criador da filosofia do método científico (hipótese → experimentos → conclusões).
Apesar do grande filósofo, foi também grande experimentador na química, e no seu
trabalho com Enxofre e Mercúrio, chegou a uma série de conclusões importantes.
Concluiu que a água é o principal alimento das plantas, e que a principal função do
solo, é sustentar as plantas na posição vertical.
Concluiu ainda que, as plantas retiram seus nutrientes do solo, através da água, e
que, se cultivarmos uma planta num determinado volume de solo, ela retirará todos os
nutrientes nele contidos, até que tal parcela de solo não mais terá condições de alimentar
a planta considerada.
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Para a época, eram conclusões até certo ponto, revolucionárias, mas temos que
considerar, que os conhecimentos de química eram muito pequenos, e, como ciência, a
Química começava ainda a dar seus primeiros passos, independente da Alquimia.
Não existiam ainda nomenclaturas para definir compostos químicos, e tampouco se
Fig. 1.21 Francis Bacon (1551 a 1626)
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conheciam processos para produzir sua maior parte, seja em laboratório, muito menos a
nível comercial.
Os produtos químicos conhecidos eram os encontrados em estado natural, e com
eles se faziam as diversas experiências.
Mas a Hidroponia, ainda inexistente como técnica, estava prestes a dar o primeiro
passo. Não que este passo tenha na realidade iniciado a sua prática, pois muitos anos
decorreram até que isso acontecesse.
No entanto, ele foi marcante, uma vez que se baseou numa experiência determinada a colher um resultado comprobatório do que há muito se verificava, mas que era relevado a planos secundários, ou seja, que o principal alimento das plantas, é a água.
Todo começou através de Johanes Baptiste Van Helmont, ou como é mais conhecido, Jan Van Helmont.
Fig. 1.22 Jan Baptiste van Helmont (1577 a 1644)
Nasceu de uma família nobre da Bélgica, em Bruxelas, a 12 de Janeiro de 1577,
veio a falecer em Vilvorde, também na Bélgica, a 30 de Dezembro de 1644.
Educou-se em Louvain, onde se formou em Química, Física e Fisiologia, exercendo
alternadamente e sem satisfação pessoal estas atividades, as quais abandonou para estudar medicina.
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Formou-se médico em Louvain, e desenvolveu seus estudos também na Filosofia
Clássica, Geografia e Direito. Desenvolveu-se ainda na Astronomia, Lógica, Geometria e
Álgebra.
Durante vários anos viajou pela Suíça, Itália, França e Inglaterra, e voltando ã sua
terra natal, fixou-se em Antuérpia durante a grande praga de 1605, onde contratou um
casamento rico, fixando-se em Vilvorde em 1609.
Van Helmont apresentou contradições curiosas.
Por um lado, foi um grande discípulo de Paracelsus, embora repudiasse acintosamente os erros deste, e ao mesmo tempo era um místico com grandes tendências ao sobrenatural, um alquimista que acreditava que com um pequeno fragmento de pedra poderia transmuta-lo numa quantidade 2.000 maior de Mercúrio ou em ouro.
Por outro lado, era tocado pelos novos conhecimentos que produziam celebridades
como Harvey, Galileo e Bacon, sendo ao mesmo tempo um grande observador da natureza e um experimentador exato, que em alguns casos concluía que a matéria não pode ser
criada nem destruída.
Como químico, credita-se a Van Helmont a posição de fundador da química pneumática, apesar desta ter vindo a florescer um século após a sua morte. Ele foi o primeiro
a compreender que existem gases distintos do ar atmosférico.
Credita-se a ele a invenção ou criação da palavra “gás”, e afirmava que o “gás silvestre” (nosso atual gás carbonico), produzido pela queima do carvão, era o mesmo produzido pelas fermentações, tornando a atmosfera das caves vinícolas, às vezes, insuportável.
Negava veementemente que nem o fogo nem a terra eram elementos, e que esta
poderia ser convertida para água.
Afirmava que as plantas, por exemplo, são constituídas fundamentalmente por água, crença que o levou ao seu grande experimento, que se tornou fundamental para a
história da hidroponia.
Era um católico fervoroso, e mesmo assim, em 1625, a Inquisição Geral Espanhola, condenou 27 de suas proposições, por heresia, arrogância descarada, e associação
com as doutrinas Luteranas e Calvinistas.
Seu grande trabalho, o tratado "De Magnetica Vulnerum" , também foi impugnado
no ano seguinte, e ainda foi condenado pela Universidade de Louvain, de 1622 a 1634,
por aderir às idéias de Paracelsus.
Foi colocado sob custódia Eclesiástica durante quatro dias, em 1634, e então,
transferido para o Convento Minorite em Bruxelas.
Após vários interrogatórios, foi colocado sob prisão domiciliar, a qual foi levantada
em 1636, porém mesmo assim os processos eclesiásticos contra ele, continuaram até
1642, e sòmente em 1646, após sua morte, sua viúva recebeu sua reabilitação oficial das
mãos do Arcebispo de Malines.
Mesmo assim, conseguiu o "Imprimatur" eclesiástico para o seu tratado, em 1642.
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Por este motivo Van Helmont não publicou nada entre 1624 e 1642.
Embora fosse médico, sua carreira como tal foi muito curta, pois que, por princípio,
recusava-se a ganhar sua vida pelo sofrimento de seus semelhantes. Assim sendo, em
1605, abandonou a carreira médica profissional, e passou a praticar a medicina gratuita.
No entanto, foi um dos mais atuantes médicos na grande praga de Antuérpia, em
1605.
Em 1609, pelo seu casamento com Margarita Van Ranst, da classe média alta
Flamenga, assume como lorde feudal em Merode, Royenborch, Oorschot e Pellines, e
dos impostos aqui coletados, obtém suas rendas, com as quais subsidia seus trabalhos e
suas pesquisas científicas.
Neste particular, Van Helmont jamais recebeu subsídios, tendo mesmo recusado
tais proventos de várias ofertas feitas por Ernst da Bavária, pelo Arcepispo de Colónia, e
pelos Imperadores Rudolph II, Matthias, e Ferdinand II. Foi também apresentado à rainha da Inglaterra, mas também recusou suas ofertas.
Acredita-se que a única ajuda que aceitou, foi a interferência de Maria de Médici,
nos processos que lhe foram movidos pela Igreja, o que não se confirmou até hoje.
De acôrdo com a Biografia Nacional da Bélgica, Van Helmont era membro da Ordem Rosacruz, o que não é confirmado por outros autores.
Profissionalmente, além da medicina, que praticava graciosamente, foi um grande
pesquisador dentro da Iatroqímica, da Farmacologia (seguidor e praticante das idéias de
Paracelsus), e na Botânica, foi um dos grandes pesquisadores de Nutrição de Plantas.
A grande experiência (para a época), que marcou a presença de Van Helmont na
História da Hidroponia data de 1600.
Nosso cientista plantou uma muda de salgueiro com 2,5 Kg de pêso, num vaso
com 100 Kg de terra adubada, coberta, para não receber poeiras e algum outro elemento
estranho. Durante 5 anos, regou esta planta com água da chuva coada (filtrada). E após
este tempo, pesando as partes, verificou que o salgueiro aumentou 80 Kg de pêso, enquanto a terra utilizada sòmente perdeu 1 Kg do seu pêso inicial.
Van Helmont considerou a perda de pêso da terra como erro de medição, e conclui,
com pertinência, que as plantas alimentam-se e se desenvolvem a partir da água.
Considerando que ainda não se conhecida o processo da fotossíntese, e muito
menos o gás carbonico e o Oxigenio, e que a água dissolve os nutrientes do solo, completando com eles a alimentação das plantas, Van Helmont estava certo.
O importante dêste experimento, é que ele foi totalmente dirigido à comprovação
da alimentação das plantas pela água.
O que até então eram suposições e conclusões eventuais de resultados, secundários ou paralelos, de experiências ou observações, que mostravam a necessidade da água para as plantas, passava então a ser algo comprovado definitivamente.
No entanto, a Química começava a firmar-se como ciência, e seu desenvolvimento
prosseguia.
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E como sempre, conseguirem-se produtos químicos, pelo menos os conhecidos à
época, sejam para usos laboratoriais, médicos e ou farmacológicos, era uma dificuldade
constante.
Esta situação começa a reverter-se a partir de Johann Rudolph Glauber, nascido em Karlstadt na Alemanha em 1604, e falecido na Holanda, em Amsterdã, em 10 de Março de
1670.
Fig. 1.23 Johann Rudolph Glauber (1604 a 1670)
Glauber, filho de um barbeiro, Rudolph Glauber, não teve educação universitária.
Iniciou sua educação na Escola Latina de Karlstadt, mas não a terminou.
No entanto tornou-se autodidata em Química, Alquimia, Iatroquímica, Farmacologia
e Metalurgia, tendo viajado muito para Paris, Basel, Salzburg e Viena, onde estagiou em
vários laboratórios.
Para seu sustento, trabalhou em farmácias, especialmente em Giessen, e também
se dedicou às artes.
Trabalhou também na fabricação de espelhos metálicos fundidos.
Em 1635, iniciou seu trabalho como farmacêutico da côrte, em Giessen, e em1654,
presenteou o arcebispo de Mainz com seu processo para a fabricação de tártaro, para ga35
Manual de Hidroponia
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rantir-se de alguns privilégios, que acabou conseguindo em 1652.
Foi fabricante de medicamentos, os quais algumas vezes ele mesmo administrava
gratuitamente. Tais medicamentos eram normalmente à base de Antimonio, o que constituía uma diretriz nova na farmacologia.
Mas, sua vida profissional também girou temporàriamente à volta da indústria vinícola, e através de sua empresa Dess Teutschlands-Wohlfahrt (de 1655 a 1661), defendeu
a exportação de vinho e cerveja, oferecendo receitas de concentrados estáveis, e fàcilmente exportáveis.
Esta foi uma, de uma série de inovações na indústria agrícola, que Glauber levou a
efeito para incrementar o comércio Alemão, ajudando sua recuperação após a guerra.
Desenvolveu muitos trabalhos na agricultura, recuperando solos nas zonas inférteis
junto às praias, através de adubação química à base de tártaro derivado de vinho.
Em seu laboratório em Amsterdã, estudou os efeitos de vários tratamentos em produtos agrícolas.
Nesta cidade, sustentou-se também vendendo produtos químicos de sua fabricação, entre os quais o Sulfato de Sódio, que descobriu, e que até hoje é conhecido como
sal de Glauber. O Sulfato de Sódio natural, em sua honra, é hoje chamado de Glauberita.
Conseguiu separar o Nitrato de Potássio (Salpeter de Potássio, resultante da Uréia
fermentada), dos solos de pisoteio nas criações de galináceos, e aplicando-o aos solos
agricultáveis, verificou seu resultado no incremento de colheitas.
Nesta época, afirmou categòricamente: "O salpeter é o principal alimento das plantas. Como os animais comem as plantas, e o salpeter é oriundo das mesmas, sendo reciclado para o solo, através das fezes dos animais". Este foi o primeiro reconhecimento
da reciclagem de nutrientes na natureza.
Na verdade, o Salpeter que Glauber separava, era resultado da hidrólise da uréia
que se decompõe, formando amonio e gás carbonico, através da ação catalítica da urease, enzima produzida e excretada por diversos microorganismos do solo.
O amonio resultante nitrifica-se produzindo o ion Nitrato que reage com o Potássio
também encontrado na urina dos animais, formando o Salpeter, ou Nitrato de Potássio.
Hoje, a uréia é sintetizada artificialmente, para uso como adubo.
Como pode ver-se, Glauber, um autodidata, além da contribuição que deu à agricultura no campo de adubações, foi na verdade o primeiro industrial a fabricar produtos
químicos em escala comerciável. Foi como se vê, o fundador da primeira indústria química do mundo.
Que importância terão estes fatos na Hidroponia? Sem os sais minerais solúveis
em água, para preparo de soluções de nutrientes, a Hidroponia torna-se extremamente
difícil, e em alguns casos, impossível.
É interessante lembrar, que na antiguidade, qualquer pessoa que frequentasse
uma universidade, além de sua língua pátria, no mínimo aprendia o Grego e o Latim.
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Eis porque os livros escritos por cientistas, e mesmo a maioria dos livros didáticos
eram normalmente escritos em Latim, que era tido como idioma universal. Isto pode notar-se pelos títulos de algumas obras que temos citado.
Quando algum estudioso, ou mesmo cientista não tivesse frequentado, no mínimo,
escola de bom nível, e desconhecia o Latim e o Grego, seu acesso a obras científicas era
muito difícil, senão impossível. Este foi o caso de Leonardo da Vinci, de Glauber e vários
outros.
Muito raramente, cientistas acabaram estudando tais línguas particularmente, com
algum mestre, ou mesmo sòzinhos. Da Vinci foi um deles.
Da mesma forma, muitos cientistas hoje de renome, tiveram suas obras esquecidas
ou relegadas a segundo plano, porque não as escreveram em Latim. Sòmente em tempos mais recentes, é que viemos a conhecer seus trabalhos, pois foram traduzidos para
outras línguas mais acessíveis modernamente.
Hoje, enfrentamos uma situação inversa. O Latim e o Grego não mais são ensinados nas escolas e universidades, a não ser para aqueles que queiram dedicar-se ao
estudo dessas línguas.
Assim, para nós, torna-se difícil o acesso a obras de antigos cientistas, a não ser
que tenhamos traduções das mesmas para nosso idioma, ou no mínimo para idiomas hoje considerados internacionais, como o Francês, o Inglês e o Espanhol.
E ao lermos obras recentemente traduzidas, acabamos muitas vezes nos deparando com fatos e conhecimentos que julgávamos recentes, mas foram já muito conhecidos,
e muitos deles descobertos, há séculos.
Um detalhe também muito interessante, é o de a maior parte dos cientistas e mesmo dos profissionais liberais formados nas antigas universidades, também serem filósofos. Além disso, seus estudos universitários, embora dirigidos para uma determinada
atividade, também os capacitavam para outras. O estudo era horizontalizado.
Eis porque verificamos, por exemplo, que o Médico, no mínimo, também era Filósofo, Químico ou Alquimista, e conforme a época, Farmacêutico e Botânico.
Não nos esqueçamos que até Paracelsus, as terapias médicas eram naturais, e os
medicamentos bàsicamente fitoterápicos, na maior parte das vezes, preparados e fornecidos pelo próprio médico.
É muito fácil hoje, aliviarmos uma azia com aquela pequena dose de bicarbonato
de sódio dissolvida em água.
É muito natural, para nós, simplesmente respirarmos, ou usar nosso sôpro, para
enchermos as bolas de borracha que enfeitam as festas de aniversário de crianças.
Como é fácil e rápido, no laboratório, sabermos se aquela solução é ácida ou alcalina. É só imergir na mesma uma tirinha de papel, e se a cor do mesmo mudar, teremos
nossa resposta.
Quem não sabe que a pressão de ar nos pneus dos automóveis aumenta nos dias
quentes, e diminui nos dias frios?
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É certo que há trezentos anos, não tínhamos bolas de borracha para encher, e
tampouco pneus de automóvel para calibrar, mas tínhamos soluções ácidas e alcalinas
para identificar, e tínhamos azias para curar. E isso não era fácil.
Saber das horas? É fácil. É só olhar para o pulso, e consultar nosso relógio. Há
trezentos anos, teríamos que consultar o relógio da torre ou então prestar atenção nas
batidas de seu sino. Os mais velhos, em dias de sol, olhavam para a posição do astro, e
conseguiam dizer as horas até que bem certas.
O que tem tudo isto a ver com a História da Hidroponia, ou ainda, com a Hidroponia
em si? Tem, e muito.
Se não mantivermos uma periodicidade correta na rega de nossa cultura, jamais
teremos a produtividade que desejamos de nossas plantas. E para isso, precisamos medir os tempos dos períodos de rega. Para tanto, precisamos de um relógio, seja ele qual
for.
Por outro lado, a manutenção do pH (acidez ou alcalinidade) de uma solução de
nutrientes, significará uma boa colheita, ou sua perda total. Para isso, necessitamos saber se nossa solução nutritiva está ácida ou alcalina, e quais os níveis dessa acidez ou
alcalinidade. Como? Usando-se um indicador de pH, ou ainda um pH-metro.
Soluções para pequenos problemas como os que expusemos, começaram com as
experiências de vários cientistas, há algumas centenas de anos, dentre os quais poderemos destacar Robert Boyle.
Sétimo filho de Richard Boyle, um aventureiro a serviço da rainha Elisabeth I da Inglaterra, junto à qual gozava de bastante prestígio, Robert Boyle nasceu a 25 de Janeiro
de 1627 no Castelo de Lismore, Condado de Waterford na Irlanda, e faleceu a 30 de Dezembro de 1691, em Londres.
Iniciou seus estudos no Eaton College de Windsor, sendo que dos doze aos dezessete anos continuou seus estudos com seu tutor e professor particular, na Suiça, país
que acaba escolhendo para residir, até 1644, quando retorna à Inglaterra, para viver com
sua irmã Catherine, Lady Ranelagh, na companhia de quem ficou sòmente um ano.
Já formado em Física, Química e Filosofia, de 1645 a 1655, viveu a maior parte do
tempo em Dorset, onde iniciou seu trabalho experimental, e a escrita de vários ensaios
morais.
Retorna por curto espaço de tempo à Irlanda, onde por falta de laboratório, se dedica à dissecação anatomica.
De 1656 a 1668, fixou residência em Oxford, onde, já com boas condições financeiras, contrata como auxiliar, Robert Hooke, que o ajuda nas suas experiências com ar
comprimido, com vácuo físico, com a respiração e com a combustão.
Em 1660, publica seu principal trabalho, "The Sceptical Chymist" (A Química Céptica), que o tornou renomado em Física e Filosofia. Nesta obra, exprime seu pensamento
àcerca de certas teorias que acredita estarem erradas, como as de Aristóteles.
Nesta época, junto com Sir Christopher Wren (1632 a 1723), arquiteto e matemático, com John Wallis (1616 a 1703), matemático e William Brouncker (1620 a 1684), ma38
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temático, funda a "Royal Society of London For The Promotion of Natural Knowledge", ou
simplesmente como a conhecemos até hoje, a "Royal Society", à qual, pouco tempo depois, se junta Robert Hooke, assistente de Boyle.
Fig. 1.24 Robert Boyle (1627 a 1691)
Ainda nesta época, Boyle descobre as relações entre o volume dos gases e as
pressões a que estão submetidos, e estabelece a conhecida Lei de Boyle, ou Lei dos Gases Perfeitos.
Esta lei foi redescoberta alguns anos após por Edme Mariotte, pelo que passou a
chamar-se "Lei de Boyle-Mariotte", e por ela, Boyle conseguiu explicar o mecanismo da
respiração.
Publica outro livro em 1664, onde explica várias descobertas, entre as quais encontramos o processo de digestão dos alimentos, e ainda, a propriedade apresentada pelo
suco das violetas, de mudar de coloração ao contacto de soluções ácidas ou alcalinas.
As propriedades do suco de violetas, possibilitou pela primeira vez a identificação
de ácidos e bases por colorimetria, cujo processo, mais aperfeiçoado, é usado até hoje.
Boyle era um seguidor das idéias de Francis Bacon, o que muito influenciou seu
temperamento.
Fez várias tentativas para explicar os fenomenos químicos em termos de uma teoria atomica. Seu sonho declarado, era emitir uma teoria corpuscular ou atomica, com a
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qual pudesse dar explicação a todos os fenomenos químicos.
Não conseguiu concretizar este sonho, porém, discutiu uma gama enorme de fenomenos e processos químicos em termos atomicos.
Auxiliado por Robert Hooke, Boyle construiu a primeira bomba de ar (compressor),
e acreditando nas possibilidades dêste seu invento, desenvolveu extensas pesquisas,
através das quais, além de descobrir o mecanismo da respiração, de que já falamos, demonstrou quase todas as características físicas do ar, sua necessidade para o fenómeno
da combustão, e para o fenómeno de transmissão do som.
Boyle conseguiu mudar completamente a visão da química como um todo. Sua posição na Química é comparável à de Copérnico na Astronomia.
Porém, como na Astronomia, muitos anos tiveram de passar, para que a estrutura
da Química Moderna viesse a ser delineada por Lavoisier e por Dalton.
É difícil de acreditar, mas a grande verdade, é que até há pouco tempo atrás, não
se tinha conhecimento da existência de nenhum retrato ou gravura de Robert Hooke, o
grande auxiliar de Boyle. Até seu nome, ainda hoje, é relativamente obscuro.
E isto se deve, na maior parte, ao seu famoso, influente e vingativo inimigo e colega, Sir Isaac Newton. Por outro lado, segundo alguns biógrafos, isto se deve também a
que Hooke jamais se deixou retratar, por se achar, segundo suas palavras, "magro, torto,
e um homem feio".
Por esse motivo, achamos por bem colocar aqui um retrato de Sir Isaac Newton,
para que nosso leitor possa conhecer tão grande cientista, porém extremamente genioso
e traumatizado.
Aliás, Newton consumiu grande parte de sua vida em conflitos com diversos cientistas, como Leibnitz e Flamstead, entre muitos outros, armando contra todos suas vinganças, especialmente contra aqueles de quem recebeu colaboração para levar a efeito
seu trabalho.
Fazia questão de mostrar que colocava em seus livros e publicações, os nomes de
seus colaboradores de trabalho, bem como os de outros cientistas em cujas obras se baseava, e depois, num terrível instinto de raiva ou vingança, retirava tais nomes.
Jamais admitiu críticas de quem quer que fosse, respondendo furiosamente a todas. Muitos acreditam que esta personalidade tenha sido causada pelo abandono a que
foi submetido enquanto criança.
Embora o trabalho de Newton seja de inestimável valor para a humanidade, em
especial no que tange às Leis da Gravitação Universal, ou mesmo aos seus trabalhos e
descobertas sôbre Ótica, não encontramos dentro dele nenhum fato que pudesse ter alguma relação com a Hidroponia, pelo que não entraremos em detalhes sôbre eles.
Recentemente, localizou-se um retrato comprovado de Hooke, entre alguns dados
como tal, mas não verdadeiros.
Robert Hooke nasceu a 18 de Julho de 1635, em Freshwater, na Ilha de Wight, Inglaterra, e faleceu a 3 de Março de 1702 em Londres.
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Frequentou a escola em Westminster, onde aprendeu Latim e Grego, porém, diferentemente de seus contemporâneos, nunca escreveu nada em Latim, preferindo expressar-se em Inglês.
Fig. 1.25 Sir Isaac Newton (1642 a 1727)
Em Oxford, cidade onde conheceu Boyle, de quem se tornou empregado, para ajudá-lo na construção da bomba de ar, frequentou o Christ College.
Descobriu a lei da elasticidade em 1660, hoje conhecida como Lei de Hooke.
Trabalhou muito em Ótica, Movimentos Harmonicos Simples, e Esforços em Molas
Espirais e Helicoidais.
Em 1665, foi nomeado para o Gresham College de Londres, onde foi professor de
Geometria durante 30 anos.
Hooke inventou o pêndulo conico e foi a primeira pessoa a construir um telescópio
Gregoriano de reflexão.
Fez grandes observações astronomicas, descobrindo o movimento de rotação do
planeta Júpiter. Seus desenhos de Marte foram usados mais tarde para determinar o
ciclo de rotação dêsse planeta, e em 1666, propôs que a gravidade poderia ser medida
usando-se um pêndulo.
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Foi um arquiteto muito competente, e em conjunto com seu cargo de professor,
assumiu o de inspetor e agrimensor da cidade. Em 1696, após o grande incêndio de
Londres, foi nomeado assistente chefe de Sir Christopher Wren no projeto de reconstrução da cidade.
Fig. 1.26 Robert Hooke (1635 a 1702)
Em 1672, tentava provar que a Terra se movia numa órbita elíptica à volta do Sol,
e, seis anos mais tarde, para explicar o movimento dos planetas, propunha uma lei baseada no inverso dos quadrados das distâncias entre eles.
Hooke não foi capaz de fornecer as provas matemáticas de suas conjecturas, porém, sempre clamou por sua prioridade na descoberta da lei dos inversos dos quadrados,
o que o levou à sua maior disputa com Newton.
Essa disputa chegou a tal ponto, que Newton, usou este fato como desculpa, para
retirar o nome de Hooke de seu livro "Principia".
As pesquisas e inventos de Hooke não tiveram fronteiras dentro da ciência, e foram
desde a Física à Astronomia, da Química à Biologia, da Geologia à Arquitetura e à Tecnologia Naval.
Correspondeu-se e colaborou com cientistas tão diversos como Christian Huygens,
Antony Van Leeuwenhoek, Christopher Wren, Robert Boyle e Isaac Newton.
Dentre suas invenções, podemos citar algumas, como a junta mecânica universal,
o sistema de diafragma íris, um protótipo de respirador artificial, o sistema de escapamento de âncora e cabelo (mola espiral) pelo uso do qual se fazem os mais precisos relógios
mecânicos.
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Trabalhou na correção da teoria da combustão, auxiliou Robert Boyle no desenvolvimento da Lei dos Gases Perfeitos e trabalhou ainda na Física dos Materiais Elásticos.
Inventou e também aperfeiçoou vários instrumentos meteorológicos, como seja o
barómetro, o anemómetro, o higrómetro, e muitos outros.
Era o tipo de cientista virtuoso, capaz de contribuir com as descobertas de maior
importância em qualquer campo da ciência, e não nos admiremos, pois fez das maiores
descobertas na Biologia e na Paleontologia.
Sua reputação como biólogo, apoia-se principalmente no seu livro "Micrographia",
publicado em 1665, e que se tornou um dos livros mais procurados e lidos tanto nos meios científicos quanto fora deles.
Desenvolveu para um microscópio de três lentes, que ele mesmo construiu, baseado na "luneta" de Huygens, um sistema de iluminação incidente, o qual, para o seu tempo,
foi o mais perfeito do mundo.
Através de seu microscópio, observou e estudou objetos tão diversos quanto insetos, esponjas, briozoários, penas, e outros tantos. De tudo o que observou, fez os mais
detalhados e precisos desenhos, os quais foram publicados em "Micrographia".
Talvez a sua mais importante observação microscópica tenha sido a de finas lâminas de cortiça, onde pela primeira vez foram vistas as células. Na verdade, o que observou, foram as membranas das células, pois que a cortiça é formada pelas membranas de
células mortas.
Porém, ele as chamou de "células", pela semelhança que encontrou entre elas e as
células dos conventos religiosos, e foi o primeiro a fazê-lo. Esse nome permanece até
hoje.
Não queremos alongar-nos no que tange às pesquisas de Hooke sôbre fósseis,
mas foi o primeiro cientista que os observou ao microscópio, e como consequência dêste
seu trabalho, tivemos o início da hoje conhecida Paleontologia.
Seu trabalho e descobertas dentro da microscopia marcaram o início de uma nova
era na Biologia e na Botânica.
Se hoje conhecemos toda a estrutura celular das plantas, se conhecemos a mecânica do sistema de absorção de água e nutrientes pelas raízes, se conhecemos as estruturas das folhas com seus estomas e seu sistema vascular, e muito mais, tudo isso devemos às pesquisas e descobrimentos de Robert Hooke no campo da microscopia.
Mas quando falamos de microscópio também nos lembramos de Antony Van Leeuwenhoek, com quem Robert Hooke se correspondeu largamente.
Leeuwenhoeck não era um cientista. Era um comerciante de Delft, na Holanda, e
veio de uma família também de comerciantes.
Não tinha fortuna, não recebeu nenhuma instrução de grau universitário, e só falava seu idioma, o Holandês. Isto seria o suficiente para ser excluído por completo da comunidade científica de sua época.
Porém, dotado de muita habilidade, dedicação, de uma extraordinária curiosidade,
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e de espírito muito aberto, completamente livre dos dogmas dos cientistas seus contemporâneos, obteve um enorme sucesso ao fazer algumas das maiores e mais importantes
descobertas na história da Biologia.
Descobriu as bactérias, os Protozoários, as células do esperma, as células do sangue, nematóides microscópicos, e muito mais.
Suas descobertas, que circularam pelo mundo de então, abriram por inteiro o mundo microscópico ao conhecimento dos cientistas.
Antony Van Leeuwenhoek, nasceu em Delft, na Holanda, a 24 de Outubro de
1632, e faleceu a 30 de Agosto de 1723. Seu pai era um artesão fabricante de cestos, e
sua mãe vinha de uma família de cervejeiros.
Fig. 1.27 Antony Van Leeuwenhoek (1632 a 1723)
Foi educado numa escola comum de Warmont, após o que viveu com seu tio em
Benthuizen.
Tornou-se aprendiz numa lavanderia de tecidos, em 1648. Em torno de 1654, retorna para Delft, onde passou o resto de sua vida, como comerciante de tecidos. Também trabalhou como agrimensor, como analista de vinhos e como oficial menor da cidade.
No ano de 1676, foi síndico da massa falida de seu amigo de infância, o pintor Jan
Vermeer.
Em 1668, Antony Van Leeuwenhoek aprendeu a polir lentes, fabricou microscópios
simples, e começou a fazer observações com eles. Alguns biógrafos dizem que se resol44
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veu fazer observações microscópicas após ter lido o livro "Micrographia" de Robert Hooke, que o próprio autor ilustrou.
Sabe-se que Leeuwenhoek construiu mais de 500 microscópios, dos quais apenas
cêrca de dez existem até hoje em museus.
A julgar pelos aparelhos que se conhecem, os microscópios de Leeuwenhoek não
passavam de simples lentes de grande aumento, e não microscópios compostos.
Eram constituídos por uma pequena chapa de metal, onde era fixada a lente, dotada de um parafuso traseiro no sentido vertical.
Êste parafuso ficava atrás da lente, tinha um segundo parafuso que servia de trava
ao primeiro, o qual terminava por uma ponta, onde era espetada a amostra a ser analisada. Não havia sequer uma boa regulagem de foco.
O conjunto montado, não media mais do que 80 ou 100 mm de comprimento, e
para ser utilizado, tinha que ser mantido manualmente, com a lente encostada ao olho,
como se fosse um monóculo. Era necessário um ambiente de muita luz, para poder ser
usado.
Fig. 1.28 Microscopio de Antony Van Leeuwenhoek
Embora muitos acreditem que Antony Van Leeuwenhoek tenha inventado o microscópio, isso não é a realidade, pois esse instrumento foi inventado em 1595 por Zacharias Jansen, um holandês de Middleburg, quarenta anos antes de Leeuwenhoek ter nascido.
E o microscópio de Jansen, já era tubular, era constituído de duas lentes conjugadas, e tinha regulagem de foco.
Inclusive, há dúvidas quanto a Hooke ter construído seu primeiro microscópio, sendo que muitos acreditam que o comprou de Jansen, e sòmente desenvolveu o sistema de
iluminação.
Todavia, por causa de várias dificuldades técnicas na construção de lentes, os primeiros microscópios não aumentavam mais do que vinte ou trinta vezes o tamanho natu45
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ral.
Porém, a habilidade particular de Leeuwenhoek no polimento de lentes, aliada ao
seu alto grau de visão e seu cuidado na escolha da iluminação, possibilitaram-lhe a construção de microscópios que aumentavam até duzentas vezes o tamanho natural.
E o que mais distinguiu Leeuwenhoek, foi a sua curiosidade na observação de tudo
o que pudesse montar sob as suas lentes, e o detalhismo com que conseguia descrever
tudo o que via.
Como não era habilidoso para desenhar, contratou um desenhista para desenhar
tudo o que descrevia seja oralmente, seja por escrito.
Os detalhes com que descrevia por escrito os microorganismos que observava, eram de tal forma profundos, que bastava ler seus textos, para imediatamente se reconhecer o que tivera observado.
Em 1673, Leeuwenhoek começou a remeter cartas para a recém formada Royal
Society of London, descrevendo o que observava aos seus microscópios. E fez isto durante cinquenta anos.
Suas cartas, escritas em Holandês, eram traduzidas para o Inglês e para o Latim, e
impressas no "Philosophical Transactions of the Royal Society", e muitas vezes reimpressas em separado.
Suas observações foram tão extensas e detalhadas, e contribuíram de tal forma
para o desenvolvimento científico da época, que, em 1860 foi eleito membro integral da
Royal Society, juntando-se a cientistas como Robert Hooke, Henry Oldenburg, Robert Boyle, Christopher Wren, e outros tantos, sem jamais haver tomado parte em alguma reunião nessa eminente sociedade.
Em 1698, chegou a receber em sua casa o Czar Pedro "o Grande" da Rússia, a
quem demonstrou a circulação nos vasos capilares de uma enguia.
Continuou suas observações até o último dia de sua vida, em 30 de Agosto de
1723, assistido pelo pastor da Nova Igreja de Delft, que escreveu para a Royal Society:
"Antony Van Leeuwenhoek considerou que aquilo que é verdadeiro na filosofia natural pode ser investigado com melhores resultados pelo método experimental, suportado
pela evidência dos sentidos; por tal razão, com diligência e trabalho incansável fez suas
lentes, e com sua ajuda, descobriu muitos segredos da Natureza, que agora são conhecidos e famosos através de todo o mundo filosófico".
Hoje, aqueles que são ou pretendem ser hidroponistas ou pesquisadores nessa
área, com grande facilidade tomam de um microscópio e identificam a contaminação de
seus cultivos com algum nematóide ou algum fungo. Ou então, usando essa mesma facilidade, regulam seu controlador de tempo para ajustar o melhor ciclo de rega ou de nebulização de suas plantas.
Fazem-no, porque existiram cientistas como Robert Hooke, curiosos, devotados e
persistentes, ou como Antony Van Leeuwenhoek, que apesar de sua "ignorância" chegou
às raias da ciência, mostrando aos homens de suas épocas o mundo que lhes era desconhecido, e muitas vezes relegado a planos inferiores por seus condutores.
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E como acontece frequentemente, o grande impulso rumo ao caminho que nos levaria finalmente à técnica hidroponica, vem de um personagem destituído dos grandes
conhecimentos científicos universitários.
Falamos de Sir John Woodward, aquele que na verdade foi o Grande Marco Inicial
da Hidroponia.
Fig. 1.29 John Woodward (1665 a 1728)
Nascido em Derbyshire, na Inglaterra, a 1 de Maio de 1665, veio a falecer em Londres, em data não muito precisa, em Abril de 1728. Existe uma passagem numa de suas
cartas, que também faz supor que nasceu em 1668.
Não frequentou nenhuma Universidade, porém, dominava bem o Latim e alguma
coisa de Grego, que aprendeu numa escola do interior de seus pais.
Aprendeu medicina prática, como aprendiz de Peter Barwick, médico do rei, entre
1684 e 1688.
Recebeu seu “Master Doctorate” como prémio especial concedido pelo Arcebispo
de Cantebury, em 1695, com o grau Lambeth, o que foi confirmado por Cambridge em
1697, porém não se conhece com certeza, em que formação ou profissão foi doutorado.
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Dedicou-se com profundidade à História Natural, à Geologia, à Paleontologia, à
Mineralogia, à Botânica e à Medicina.
O interesse de Woodward pela ciência, foi muito variado, e durante suas viagens
no exercício da medicina, as quais começou a fazer muito jovem, estudou profundamente
as plantas, os minerais, e os fósseis.
Sua reputação ganhou corpo, quando apresentou um ensaio intitulado "Essay Toward a Natural History of the Earth" (Ensaio Sôbre a História Natural da Terra), em 1695,
o que foi uma teoria muito avançada para explicar a estratificação dos solos, com os fósseis nele incrustados, a partir de resíduos depositados provenientes de dilúvios ou de inundações.
Insistia que os fósseis eram restos de animais e plantas que viveram em eras passadas, relacionando tais fósseis com a formação das rochas.
Formou uma grande coleção de fósseis e minerais, que colhia pessoalmente, ou
que lhe eram enviados de muitas partes, os quais tentou classificar, conforme seu livro
"Naturalis Historia Telluris", publicado em 1714.
Chegou assim à sua primeira classificação de minerais, se bem que primária, em
seu livro "Fossils of All Kinds Digested Into a Method" publicado em 1729. Neste livro,
pela primeira vez, foi usado o termo genérico "fóssil", cuja criação se atribui a Woodward.
Numa obra de publicação póstuma, em 1729, também cuidou de minerais, tendo
ainda escrito um tratado sôbre a história natural de minérios e metais, que como dito, não
chegou a publicar em vida.
Por todo este trabalho, foi considerado como sendo a maior figura na Geologia Inglesa.
Era muito genioso, arrogante, sensível e briguento, o que lhe valeu inúmeras inimizades, porém, mesmo assim, em 1693 foi eleito membro da Royal Society, onde por várias vezes integrou o conselho administrativo, e foi também eleito membro do Medical College e do Royal College of Physicians, em 1703.
Sôbre medicina, sòmente publicou um trabalho, "The State of Physick and of Diseases", em 1718, o qual lhe valeu muitas discussões e brigas, as quais eram frequentes na
sua vida.
O Dr. Peter Barwick, médico do rei e seu instrutor de medicina, além de Robert
Plot, um de seus poucos amigos, influenciaram sua nomeação como professor do Gresham College, onde lecionou entre l692 e 1728
Woodward deixou como legado, para a Universidade de Cambridge, dois armários
com coleções de fósseis, para que servissem de material de ensino, além de boa soma
em dinheiro, para que após sua morte, se fundasse o "Woodwardian Professorship of Geology".
Em 1729, a Universidade comprou o restante da coleção do espólio de Woodward,
fundando o Woodwardian Museum, com finalidades didáticas, mantido e utilizado pelos
professores Woodwardianos
Em 1904, foi construído, em homenagem a Adam Sedgwick, professor Woodwar48
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diano, o atual Sedgwick Museum of Geology, em Cambridge, onde se encontra a coleção
de fósseis de John Woodward.
Porém, sua vida como experimentador sistemático na nutrição de plantas, é para
nós a parte mais interessante.
John Woodward acreditava que as plantas nutriam-se fundamentalmente da água,
e não do solo. Porém quando retirava plantas do solo, e as deixava para sobreviver com
as raízes imersas na água, suas plantas morriam dentro de pouco tempo.
Notou que realmente as plantas absorviam a água, pelo que tinha que completá-la
nos vasos de vidro onde as mantinha.
Porém quando mantinha o nível de água abaixo do colo das raízes, sua vida era
mais longa, pelo que passou a deixar sòmente cerca de metade das raízes imersas. Hoje sabemos, que as plantas absorvem Oxigenio pelo corpo das raízes.
Verificava também, que as plantas que mantinha em vasos com terra, sobreviviam
se a terra fosse periòdicamente regada. Não adiantava molhar as folhas.
Perguntava-se então, que relação existiria entre as plantas, a terra e a água. A
planta, era seu objetivo final, e pelo menos durante bom tempo, sobrevivia só com água,
porém isso não acontecia só com terra. Então, algo deveria existir na terra, que se misturava com a água, e mantinha as plantas vivas.
Tomou então a decisão final, e dissolveu terra na água, deixando sedimentar a parte não dissolvida.
Na solução obtida, suspendeu plantas de menta, e verificou então, que elas sobreviviam, e se desenvolviam. Experimentou outros tipos de plantas, e outros tipos de terra,
e os resultados foram sempre positivos.
Porém, quando usava terra oriunda de locais de pisoteio de gado ou de aves, muitas vezes, suas plantas morriam.
Começou então a variar as quantidades de terra dissolvidas, de acôrdo com sua
origem, e verificou que, conforme o tipo de terra utilizado, era necessário ajustar a quantidade desta na solução.
Quando começou a escrever suas conclusões dizia:
"As plantas alimentam-se da água e de elementos nela dissolvidos, que se encontram na terra. Quando conseguirmos descobrir quais são esses elementos, poderemos
prescindir da terra, para cultivá-las.
Existe um processo em cada parcela da Natureza, que é perfeitamente regular e
geométrico, e se conseguirmos encontrá-lo receberemos a compensação pelo nosso trabalho. “Acredito que descobri um dêsses processos, e estou seguro que cedo ou tarde, a
Natureza nos recompensará".
John Woodward jamais imaginaria que acabara de dar início à moderna tecnologia
Hidroponica.
Para o nosso cotidiano, sem dúvida que é mais fácil dizermos "alface", "tomate" ou
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"homem", do que "Laetuca Sativa", "Lycopersicum Esculentum" ou "Homo Sapiens", que
são palavras em Latim.
Como se isso não bastasse, a cada par de palavras em Latim, ainda se juntam
umas letras como "Lin", ou "Linn".
Mas se, por exemplo, estivermos nos Estados Unidos, e quisermos comprar umas
sementes de alface, uma vez que dominemos relativamente bem o idioma, poderemos
pedir Lettuce Seeds.
Porém, se não dominarmos o idioma, bastará pedirmos "Laetuca Sativa" Seeds.
Aquelas duas palavras em Latim seriam a solução de nosso problema.
E isto acontece, porque todos os seres vivos, hoje estão classificados numa determinada ordem, e de acôrdo com certas características que são peculiares para cada um.
E a cada ser vivo foi dado um nome. Porque o Latim desde tempos idos era considerado língua universal, o nome foi dado nessa língua, para que tal nome fosse reconhecido por qualquer pessoa, falando qualquer idioma.
E aquelas letras no final de cada nome? Bem, essas geralmente são uma homenagem a quem pela primeira vez classificou tal ser, ou algum personagem célebre dentro
do mundo científico. No nosso exemplo, "Lin", ou "Linn", são uma homenagem a Linnaeus, ou melhor, a Carl Linnaeus.
Como já mostramos várias vezes ao longo destas páginas, desde a época de Teofrasto, que diversos cientistas e pesquisadores têm dedicado vários anos de suas vidas
na tentativa de estabelecer uma classificação para os seres vivos.
As diversas tentativas de classificação, de maior ou menor êxito, ao longo dos séculos, tiveram sempre dois aspectos básicos que as orientaram.
As classificações naturais, que levavam em consideração tanto o ser vivo, quanto o
ambiente em que se desenvolvia, ou ainda a finalidade a que se destinava.
As classificações artificiais, que agrupavam os seres vivos de acôrdo com peculiaridades que eram comuns em todos os participantes de cada grupo, como por exemplo, o
tipo de flor ou o tipo de folha de determinado grupo de plantas, sem considerar seu "habitat" ou sua utilidade.
Teofrasto formulou uma classificação artificial, e assim o fez Andréa Cesalpino, e
outros. Já Dioscorides, usou uma classificação natural, pois além de características morfológicas das plantas, considerava também seu "habitat" e sua utilidade.
No entanto, a mais perfeita classificação dos seres vivos, começou pela classificação de plantas feita por Carl Linnaeus.
Não existe nenhuma conexão direta, entre a História da Hidroponia e a classificação dos seres vivos, e acreditamos que muito menos exista uma conexão indireta. O
único relacionamento diz respeito às plantas de modo geral.
Porém, nestas páginas, temos prolongado nossos tópicos relativos à História da
Hidroponia, juntando pequenas biografias dos personagens que entendemos estarem ligados a ela, por mínimos indícios que sejam.
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Temos juntado também esclarecimentos a certas dúvidas que persistem até hoje,
como é o caso dos Jardins Suspensos de Babilonia.
Porque então, não falarmos de um personagem, que conseguiu juntar todos os cientistas mundiais ligados às ciências da vida na Natureza, sejam eles de ontem, de hoje
ou de amanhã?
Dizemos que juntou, porque que todos, a partir de certa data passaram a usar o
sistema de classificação de seres vivos, conhecidos ou a conhecer, idealizado por esse
cientista. Falemos então alguma coisa sôbre ele.
Fig. 1.30 Carl Linnaeus (1707 a 1778)
Carl Linnaeus, como foi seu nome de batismo, nasceu na Suécia, em Stenbrohult,
na província de Smaland, a 23 de Maio de 1707, vindo a falecer, vítima de um derrame
cerebral, em 1778.
Nos seus livros, Linnaeus usou seu primeiro nome, numa transformação para o
Latim, Carolus, mantendo seu sobrenome.
Em 1762, foi armado cavaleiro, e recebeu título de nobreza do rei Adolf Frederik,
tendo seu nome mudado para Carl von Linné. O "von" foi-lhe adicionado ao nome para
dar-lhe a marca da nobreza Alemã, dado que tal tipo de marca não existe na língua Sueca. Na mudança de seu nome dotado de marca de nobreza, foi acentuado o "e".
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Assim sendo, quando encontramos citações como Linnaeus ou Linné, ou ainda
como Carolus ou Carl, todas estão corretas, embora a mais correta de todas, seja Carl
Linnaeus, seu nome de batismo.
Seu pai, Nils Ingemarsson Linnaeus, era um profissional jardineiro, e pastor Luterano, ao passo que Carl, desde criança, mostrava um profundo amor pelas plantas e seus
nomes, desapontando enormemente sei pai, por não apresentar nenhum interesse pelo
sacerdócio.
No entanto, deu alguma alegria à família, quando, em 1727, ingressou na Universidade de Lund, para estudar medicina. E assim, um ano depois, transferiu-se para a Universidade de Uppsala, a mais prestigiada universidade da Suécia.
Apesar disso, não tinha interesse pelo curso que seguia, aproveitando-se dele simplesmente pelas aulas de Botânica, e gastando a maior parte de seu tempo em colecionar
e estudar plantas.
Temos que entender, que à época, os cursos de medicina eram muito completos
na cadeira de Botânica, uma vez que as terapias médicas eram essencialmente fitoterápicas, e os próprios médicos preparavam os medicamentos que ministravam.
Em 1731, apesar de suas péssimas condições financeiras, Carl montou uma expedição botânica à Laponia (no retrato de Linnaeus que mostramos, ele usa o traje Lapão
típico). Em 1731, montou mais uma expedição, também botânica, à Suécia central.
Em 1735, desloca-se para a Holanda, onde, na Universidade de Harderwijk, termina seu curso de medicina, após o qual faz pós-graduação na Universidade de Leiden.
Nesse mesmo ano, publicou a primeira edição de seu livro "Systema Naturae", onde apresenta seu sistema de classificação dos seres vivos, passando a manter contato ou
a corresponder-se com os maiores botânicos da Europa, e continua a aperfeiçoar seu sistema de classificação.
Retornou à Suécia em 1738, onde passou a exercer a medicina, sendo em 1741,
nomeado professor na Universidade de Uppsala.
Aqui, restaura o Jardim Botânico da Universidade, já agora dispondo as plantas do
Jardim, de acôrdo com seu sistema de classificação, inspirando toda uma geração de estudantes no seu amor pelas mesmas.
Continua sempre aperfeiçoando seu sistema de classificação de seres já descrito
em "Systema Naturae", e ainda encontra tempo para exercer a medicina, tornando-se
médico da Família Real Sueca.
Seus últimos anos de vida foram marcados por incrível depressão, vindo a falecer,
como já dissémos, em 1778, vítima de um derrame cerebral.
Seu sistema de classificação era binomial, ou seja cada ser vivo recebia um nome
composto de duas palavras sendo a primeira o nome do genero do ser, e a segunda o
nome da sua espécie.
A sequência de sua classificação constituia-se de Reinos, Classes, Generos, e Espécies, e dentro dela, classificou mais de quatro mil seres vivos, inclusive o Homem, que
Linnaeus cognominou, e nisto foi o primeiro, de Homo Sapiens.
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Sempre visando a classificação de seres vivos, Linnaeus escreveu várias obras,
como "Flora Lapponica" em l737, resultado de sua expedição à Laponia em
1731,"Philosophia Botanica" em 1751, "Species Plantarum" em 1753, e "Genera Morbum"
em 1763.
Muito se poderia falar de Carl Linnaeus, mas para tanto, fugiríamos exageradamente à meta de nosso trabalho.
Além disso, durante o período em que se dedicava à classificação dos seres vivos,
a Química continuava avançando cada vez mais, com grandes descobertas, de enorme
importância para o conhecimento da Nutrição das plantas, e paralelamente, para o desenvolvimento da Hidroponia.
John Woodward já havia delineado os princípios básicos da cultura em água, porém, ao emitir suas conclusões, desconhecia o mecanismo de absorção de gás carbonico
através das folhas. Sequer conhecia o gás carbonico.
Fig. 1.31 Joseph Priestley (1733 a 1804)
E este conhecimento, veio através das descobertas de Joseph Priestley.
Um dos seis filhos de Jonas Priestley, Joseph Priestley nasceu a 13 de Março de
1733, na Inglaterra, em Fieldhead, perto de Birstall em Yorkshire. Sua mãe faleceu, ao
dar à luz o sexto filho, em seis anos de casamento.
Ainda jovem decidiu seguir a carreira do Sacerdócio, e para tanto, estudou Latim,
Grego e Hebreu.
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Vítima de doença pulmonar, que deixava em dúvida se poderia prosseguir na carreira que decidira seguir, aprendeu sozinho o Francês, o Italiano e o Alemão, preparandose assim para alguma ocupação comercial.
No entanto recuperou-se, e entrou para a Academia de Daventry, sendo diplomado
ministro da igreja em 1755. Em 1758, mudou-se para Nantwich, tornando-se professor
na Warrington Academy em Lancashire, por onde veio a receber sua ordenação final em
1762, ano em que casou com Mary Wilkinson, irmã única de um cuteleiro.
Em Nantwich, começou a ensinar física e química, e, numa visita a Londres, em
1766, conheceu Benjamin Franklin, que lhe forneceu vários livros.
Ao saber que Priestley havia descoberto que o carvão vegetal era condutor elétrico,
pediu-lhe que editasse o livro "History of Electricity", que Benjamim havia escrito recentemente.
Durante toda a sua vida, Priestley se dividiu entre o sacerdócio e a ciência, para a
qual, desde jovem, sempre mostrara grande vocação.
Aos nove anos de idade, Priestley havia sido adotado por sua tia, Sarah Keighley, a
qual, como seu marido, era uma "Dissenter".
Os "dissenters" eram pessoas que pertenciam a outras igrejas, que não a Igreja da
Inglaterra, e neste grupo estavam incluídos os Católicos, os Quackers, os Calvinistas, os
Presbiterianos, e outros. Priestley era Presbiteriano.
Esta dissidência religiosa acabou obrigando Joseph Priestley a emigrar para a América, em 8 de Abril de 1794, fixando-se em Northumberland, próximo a Philadelphia,
onde veio a falecer, em 6 de Fevereiro de 1804, vitima de uma pleurisia.
A carreira religiosa de Priestley foi muito atribulada, e até certo ponto prejudicou-o
por toda a vida, porém, aqui dedicar-nos-emos mais à sua carreira científica.
Em 1766, foi admitido para a Royal Society. Em 1772, foi eleito membro da Academia Francesa de Ciências, e em 1780, nomeado membro da Academia de São Petersburgo, na Rússia.
Por razões financeiras, em 1767, tornou-se ministro em Yorkshire, na congregação
de Mill Hill, em Leeds. E é aqui, que começa realmente seu interesse pelo estudo dos
gases, que o tornou famoso no mundo da ciência.
Em Leeds, Priestley morava perto de uma cervejaria, e lá, descobriu uma maneira
de coletar o gás que exalava dos tanques de fermentação de cerveja, verificando posteriormente que esse gás se dissolvia na água, e em outros líquidos.
Pensou que, dissolvendo esse gás no vinho, poderia fazer vinho gasoso, como a
cerveja, sugerindo que isso poderia também prevenir o escorbuto nos marinheiros, durante as viagens longas.
Na verdade, havia descoberto o gás carbonico, e pelo fato de dissolvê-lo no vinho,
podemos dizer que se tornou o Pai das bebidas gasosas.
Priestley conseguiu isolar uma série de gases, como o óxido de Nitrogenio, o amonio, o dióxido de enxofre, o monóxido de carbono, e o dióxido de carbono, para o que
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usava uma cuba pneumática de mercúrio (cuba ou câmara hidragiropneumática).
Antes de prosseguir, convém lembrar que era partidário da teoria do "Phlogiston",
conservando esta posição, mesmo após ter conhecido pessoalmente Antoine de Lavoisier, e com este ter trocado idéias e opiniões a respeito, em vários encontros, além de muita correspondência.
Estudou detalhadamente cada gás que descobriu e isolou, procurando aplicações
práticas para os mesmos.
Em colaboração com Henry Cavendish descobriu que a água é um composto, formado de Oxigenio e Hidrogenio.
No entanto, a maior descoberta de Joseph Priestley, foi o Oxigenio, que isolou a
partir do óxido de Mercúrio, em Agosto de 1774.
Queremos aqui fazer uma ressalva quanto à descoberta do Oxigenio por Priestley.
Na verdade, o Oxigenio foi descoberto pelo farmacêutico sueco Karl Wilhelm Scheele, em 1772.
Porém, seu trabalho sòmente foi publicado e dado a conhecer ao mundo científico,
em 1777, pelo que Priestley o desconhecia.
No entanto, Priestley publicou suas descobertas em seu livro "Experiments and
Observations on Different Kinds of Air", em 1775, dois anos antes de Scheele. Eis porque se dá a Priestley o privilégio da descoberta.
Das muitas experiências levadas a efeito por Priestley, a que se tornou bastante
extensa e valiosa para nós, foi a do gás carbonico.
Como de seu hábito, nosso cientista procurava sempre as aplicações para os gases que descobriu, e notou que, quando colocava um rato dentro de uma campânula com
Oxigenio, este morria dentro de certo tempo.
Concluindo que o animal consumia o Oxigenio da campânula, verificou que o gás
resultante era gás carbonico, pelo que podia concluir que o Oxigenio era fundamental para a respiração e sobrevivência dos animais, além de que, pela respiração, estes exalavam gás carbonico.
Por outro lado, nas experiências com gás carbonico, sabendo que um rato não sobreviveria numa campânula com esse gás, experimentou uma planta.
Para manter a planta viva dentro da campânula, ele a colocava numa solução de
solo, como já havia sido experimentado por John Woodward, e da mesma forma que este, usou plantas de menta.
Verificou, que as plantas sobreviviam durante certo tempo, e depois morriam.
Analisando o gás residual da campânula, verificou que era Oxigenio.
Sabendo a composição do gás carbonico, concluiu que, de alguma forma as plantas tinham consumido o carbono do gás carbonico, e deixado em seu lugar, ou exalado,
Oxigenio.
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Analisando os resultados das duas experiências, concluiu que, se a planta necessitava de gás carbonico para sobreviver, e o rato precisava de Oxigenio, juntando planta e
rato numa só campânula, poderia compensar os gases formados e consumidos.
Experimentou, e o resultado foi positivo. Sem o pretender, havia verificado a absorção pelas plantas do carbono contido no gás carbonico do ar, e a liberação de Oxigenio por estas.
Além disso, também sem querer, confirmou as experiências de John Woodward
quanto à sobrevivência das plantas em solução aquosa.
Com estes experimentos, também se conseguiu explicar mais uma parte das diferenças encontradas por Jan Van Helmont. O grande aumento de pêso de sua muda de
salgueiro, proveio não só da água, mas também do carbono que absorvera do gás carbonico do ar.
Em resumo, descobriu o sistema de respiração das plantas, que hoje conhecemos
como fotossíntese, porém não chegou a descobrir o seu mecanismo.
Joseph Priestley, conhecido por sua calma, seu modo carinhoso de falar, mesmo
quando prègava no púlpito conseguiu conciliar a religião e a ciência, sem, no entanto misturá-las, e foi tido como um dos grandes cientistas precursores da química moderna.
Pelo seu "status" de Químico e homem religioso, fez-nos compreender a importância dos vegetais na natureza quando disse:
"I have been so happy as by accident to hit upon a method of restoring air which
has been injuried by the burning of candles and to have discovered at least one of the restoratives which Nature employs for this purpose. It is vegetation".
"Fui tão feliz que, por acidente, na busca de um processo de recuperação do ar
envenenado pelas velas queimando, encontrei pelo menos um, que a Natureza emprega
para essa finalidade. É a vegetação".
Uma das características de Priestley, a qual até certo ponto lhe foi prejudicial, era a
de relatar tanto os sucessos quanto os insucessos de suas experiências.
E assim ficamos sabendo que nem sempre tinha sucesso quando colocava plantas
em gás carbonico para obter Oxigenio. Quando fazia suas experiências em dias obscuros ou encobertos, seus resultados eram negativos.
Não chegou a descobrir o porquê dêste fenómeno, e sòmente em 1779, é que o
Fisiologista holandês Jan Ingenhousz (1730 a 1799), pela publicação do seu livro "Experiments on Vegetables", trouxe à luz a solução.
Repetindo as experiências de Priestley, Ingenhousz verificou que para o fenómeno
acontecer, era necessário que as plantas estivessem expostas à luz solar.
Descobriu também, que sòmente as partes verdes das plantas é que tinham a capacidade para produzir Oxigenio.
Além disso, também verificou, que havia uma razão direta entre a intensidade da
luz, e a produção de Oxigenio, ou seja, quanto maior a intensidade da luz, maior a quantidade de Oxigenio produzida.
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Lentamente, através de anos de pesquisas, os cientistas iam desvendando os porquês das diferenças de pêso encontradas por Jan Van Helmont na sua experiência.
E, mais um passo foi dado, pelo fisiologista suíço, Nicholas Theodore de Saussure
(1767 a 1845).
Filho do cientista, geólogo, filósofo e alpinista Horace Benedict de Saussure (1740
– 1799), nasceu em Genève na Suíça.
Fig. 1.32 Jan Ingenhousz (1730 a 1799
Seu pai decidiu educá-lo, e com ele fez várias viagens e expedições científicas.
Foi membro da expedição de seu pai ao Monte Branco nos Alpes Suíços em 3 de
Agosto de 1787, e conduziu várias experiências que confirmaram o trabalho de Edmé Mariotte sôbre o pêso do ar a várias altitudes.
É interessante notar que Horace Benedict de Saussure, foi o segundo homem a
escalar o Monte Branco, um ano após a primeira escalada levada a efeito por J. Balmat e
M.G. Paccard.
Durante a escalada do Monte Branco, fez vários experimentos sôbre a umidade,
pressão do ar e ebulição da água, e ainda estimou a altura desta elevação em 4775 metros, valor 30 metros menor do que a real altura da mesma.
Desenvolveu seu interesse pela Botânica, especialmente na fisiologia das plantas,
durante suas expedições alpinas, e em 1797 publicou vários trabalhos sôbre a formação
do ácido carbonico nas plantas.
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Em 1802, foi nomeado professor de mineralogia e geologia em Genève. Apesar
de manter esta posição, nunca fez nenhuma palestra ou leitura, dado que almejava uma
posição na matéria de Química das Plantas.
Continuou sempre suas pesquisas em Botânica, e em 1804 escreveu o Livro “Recherches Chimiques Sur La Vegetation”.
Seu trabalho mais importante foi na área da fotossíntese. Ainda em 1804, demonstrou que as plantas ganham pêso, convertendo gás carbonico em Oxigenio e Carbono.
Originalmente, concluiu corretamente que esta reação depende da luz, e incorretamente concluiu que o Carbono e o Oxigenio eram produtos formados a partir do gás
carbonico, o que nem sempre é correto.
Fig. 1.33 Nicholas Theodore de Saussure (1767 a 1845).
Todavia, posteriormente verificou que havia um ganho de pêso nas plantas, maior
do que aquele devido ao Carbono, deduzindo que a água também podia ser incorporada
ao pêso das plantas.
Repetindo a experiência de Van Helmont, 200 anos depois, já agora aparelhado
com melhores facilidades laboratoriais e dotado dos conhecimentos de química atualizados para a sua época, mediu cuidadosamente os pesos das partes participantes do processo.
Confirmou assim, em 1804, que a água também era parte integrante do processo
de produção de Oxigenio, e que é absorvida pelas raízes, e transpira pelas folhas.
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Além disso, descobriu que o verde das folhas e outras partes das plantas, era causado por uma substância, que foi denominada "clorofila", sendo ela responsável pela absorção da luz, e pela transformação do gás carbonico em Carbono e Oxigenio, fenómeno
denominado por "fotossíntese".
Verificou ainda, que a respiração é necessária ao crescimento das plantas, e que a
maior parte da massa sólida das mesmas, provém do ar, e não do solo.
Dos elementos químicos então conhecidos, de Saussure elaborou uma lista de nove deles, encontrados nas plantas.
E assim, as dúvidas referentes às perdas de pêso na experiência de Van Helmont,
ficaram esclarecidas.
Até hoje, a fotossíntese é um processo muito estudado, e no momento conhecemos cêrca de 50 reações que a compõem, reguladas por enzimas.
Também já se determinaram outros compostos similares à clorofila, que agem secundàriamente a esta, seja em conjunto, seja em diferentes fases do ciclo das plantas.
Como pode ver-se mais uma vez, os conhecimentos sôbre a Nutrição das Plantas,
foram se desenvolvendo juntamente aos da Química, e lentamente, nos processos de
pesquisa onde se envolviam plantas vivas dentro dos laboratórios, estas eram mantidas
em "soluções de solo".
Também, como já vimos anteriormente mais de uma vez, várias descobertas, fossem elas ligadas à química ou não, influíram nos caminhos da Hidroponia ao longo de sua
história.
Talvez este tenha sido o caso do isolamento de vários elementos químicos, exemplo dos quais, seriam o Sódio, o Potássio, o Cálcio, e muitos outros.
Sem dúvida que eram elementos já conhecidos, mas como tantos outros, no seu
estado puro, eram às vezes um sonho.
Na sua maior parte, os elementos químicos puros conhecidos, eram os que se encontravam na natureza nesse estado, como era o caso do Enxofre e do Mercúrio.
Priestley já nos havia premiado com a descoberta de Oxigenio, e alguns outros elementos, mas também estes, se poderiam encontrar puros na natureza Ele só os descobriu e isolou, além de ter procurado sua utilidade prática.
E é nesta fase de nossa história, que nos aparece Humphry Davy, por muitos também conhecido como Humphrey Davy. Não podemos afirmar se, pelo seu batismo, seu
nome correto seria Humphry ou Humphrey, porém, nos seus escritos, sempre assinava
Humphry, pelo que adotamos esta ortografia como sendo a correta.
Humphry Davy nasceu na Inglaterra, aos 17 de Dezembro de 1778, em Penzance,
na Cornwall, e sua educação escolar ocorreu tanto em Penzance, como em Truro.
Pela morte de seu pai, em 1794, viu-se obrigado a trabalhar para ajudar no sustento da família, o que fez como aprendiz do cirurgião e farmacêutico J. Binghan Borlase.
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Influenciado pela leitura do livro "Traité Elementaire" de Antoine de Lavoisier, a partir de 1798, Davy tornou-se muito interessado na química, e aconselhado por seu amigo
Davies Giddy, encorajou-se para iniciar seus estudos sobre Química.
Assim, dedicou-se com afinco aos estudos de várias controvérsias sobre a química
de sua época, além de Ótica, Física, e Natureza da Eletricidade.
Fig. 1.34 Humphry Davy (1778 a 1829)
Isto despertou grande interesse nele por parte de Thomas Beddoes, que o recomendou para o Pneumatic Institution of Bristol, organização dedicada ao estudo das aplicações clínicas de vários gases.
Aqui, Davy começou a sua reputação. Estudou os óxidos de Nitrogenio, e descobriu os efeitos fisiológicos do Óxido Nitroso, muito conhecido com "Gás Hilariante".
Assim é que, em 1800, publica seu trabalho "Researches, Chemical and Philosophical", onde descreve os efeitos de vários gases, como os do monóxido de carbono, obtido pela produção do gás da água, cuja inalação quasi o matou.
Nesta obra, inclui suas descobertas do efeito analgésico e anestésico do gás hilariante, recomendando-o para uso na redução de dores em cirurgias, o que lhe rendeu a
nomeação de conferencista do recém fundado Royal Institution of Great Britain.
Foi diplomado professor de química em 1802, e, consequência de suas conferências e experiências, foi nomeado membro da Royal Society, onde foi eleito secretário no
decorrer de 1807.
Em 1802, em colaboração com Thomas Wedgwood, Davy publicou o trabalho "An
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Account of a Method of Copying Paintings on Glass, and Making Profiles, by the Agency
of Light Upon Nitrates of Silver".
Davy fez as primeiras fotografias usando placas de vidro revestidas com Nitrato de
Prata, mas as imagens eram temporárias, ficando totalmente pretas ao separá-las dos
negativos, e em contato com a luz.
Desde a descoberta da pilha elétrica por Volta, em 1800, o que causou verdadeira
tempestade no mundo científico, Davy se interessou pelo seu estudo, tentando explicar
seu funcionamento, e procurando desenvolvê-la em aplicações práticas.
Entre 1806 e 1807, apresentou as mais desenvolvidas pesquisas sôbre a pilha,
bem como suas teorias da "Eletroquímica", termo que ele criou.
Sua mais importante descoberta, no entanto, foram os elementos Sódio e o Potássio, obtidos pela eletrólise de hidróxido de sódio e hidróxido de potássio fundidos, usando
para isso uma pilha de 600 elementos.
Como contava seu irmão, o Dr. John Davy, quando Davy observou os pequenos
glóbulos brilhantes de Potássio aparecerem no pólo negativo de sua cuba eletrolítica, começou dançando, cantando e pulando à volta de seu laboratório.
Seguido a isto, construiu a maior pilha do mundo, à época, com 2.000 elementos,
com a qual passou a alimentar sua cuba, e denominou o processo de decomposição eletrolítica, como "Eletrólise".
Descobre então o Cálcio, o Bário, o Estrôncio, o Iodo, e o Boro, elementos que, da
mesma forma que os já descobertos, ele mesmo nomeou.
Descobriu na mesma época, que o diamante é uma forma alotrópica do Carbono, e
que o carvão é um condutor elétrico.
O resultado de suas experiências na obtenção destes elementos, bem como a continuação de suas pesquisas, foram descritos em seu trabalho "On Some Chemical Agencies of Electricity", e em 1806, recebeu o "Prémio Napoleão", concedido pelo "Institut de
France", no valor de 3.000 Francos.
Isto foi uma honra internacional fora do comum, dado que nessa época, a França e
a Inglaterra estavam em guerra.
Em 1812, casa-se com Jane Appreece, jovem e rica viúva. Em 1813, contratou
como seu assistente, o então jovem Michael Faraday, que viria a tornar-se um dos mais
famosos e importantes cientistas da geração seguinte.
Muitos historiadores dizem que Faraday foi a maior descoberta de Davy.
Em 1818, recebeu o título de "baronete", passando a chamar-se Sir Humphry Davy.
Pede então demissão do Royal Institution, e sai de viagem pela Europa, na companhia de sua esposa e de seu assistente, inclusive para a França, onde para entrar e viajar
teve autorização particular, entregue em mãos por Napoleão.
Viajou sempre com seu laboratório portátil, e fez inúmeros contatos no ambiente da
Europa Continental, onde realiza importantes trabalhos com Cloro.
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Manual de Hidroponia
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O Cloro, já havia sido identificado e separado por Carl Wilhelm Scheele em 1774,
mas este identificou-o como "ácido marinho deflogisticado", que na Inglaterra era conhecicido por "ácido oximuriático".
Davy descobriu que esse "ácido" era um elemento, e batisou-o como Cloro, e ainda
que, reagindo-o com amonio, o resultado era um composto gasoso formado por Cloro e
Hidrogenio, e ainda Nitrogenio puro.
Descobriu assim o ácido clorídrico, ou muriático, e ainda mais, derrubou a teoria de
Antoine de Lavoisier, que dizia ser o Oxigenio elemento essencial constituinte e caracterizador dos ácidos. Em suma, provou que é o Hidrogenio que caracteriza o ácido, e não o
Oxigenio.
Dedicou-se muito às teorias da combustão, e ao estudo da chama, e, em 1815,
Davy inventou a famosa "Lâmpada de Segurança" para uso nas minas de carvão, onde
usou as teorias das telas metálicas de malhas apertadas.
Esta lâmpada, que como todas as da época, era de chama, poderia ser usada nas
minas de carvão, comumente cheias de misturas de ar e metano, chamada de grisú, altamente explosivo.
Jamais patenteou sua invenção, o que foi um erro, pois deu margem a que o engenheiro ferroviário George Stephenson se creditasse de tal invenção. Porém, Stephenson
também não a patenteou.
Inquirido quanto ao patentear ou não sua invenção, dizia Davy: "Não, meus amigos, nunca pensei em tal coisa. Meu único objetivo foi servir a causa da humanidade, e,
se tiver sucesso, estarei altamente premiado e recompensado por tê-lo feito".
Davy descobriu e nomeou o Alumínio, chamando-o de "Aluminum", têrmo que até
hoje é usado nos paises de língua Britânica. O resto do mundo usa o têrmo "Aluminium".
Porém jamais conseguiu isolá-lo na forma pura, o que foi feito por Christian Oersted em
1825.
Inventou ainda a lâmpada de arco-voltaico, e desenvolveu um processo para desalinizar a água do mar, além de ser pràticamente o iniciador dos processos de galvanoplastia, quando desenvolveu o recobrimento de aparas de cobre, com zinco, via eletrolítica.
Publicou ainda um livro integralmente dedicado à agricultura, onde introduziu a
química na adubação de solos, na curtição de peles, e na indústria mineira.
Durante toda a sua vida, foi um poeta, mas nunca publicou seu livro de poemas.
Em 1827, ficou muito doente, e isso foi atribuído, mais tarde, ao abuso de inalação
de muitos gases, durante toda a sua vida.
Em 1829, fixou residência em Roma, na Itália, onde sofreu um ataque cardíaco.
Veio a falecer em 29 de Maio de 1829, em Genebra, na Suíça.
A ciência de Humphry Davy foi motivada por problemas relativos à vida, à matéria,
a Deus, ao pensamento, e à imortalidade.
Acreditava firmemente que a principal finalidade da existência do ser humano, era
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Manual de Hidroponia
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a realização de seu intelecto, e desta forma, penetrar nos segredos do Universo de Deus.
Talvez esta forma de pensar, mostrasse que Davy sentia-se singularmente avançado na escala da existência.
Mostrou-nos que o ser humano, mesmo sem o saber, é um pesquisador por excelência, característica típica e fundamental daqueles que são, ou pretendem vir a tornar-se
hidroponistas, a quem, provàvelmente caberá, em futuro próximo, boa parte da responsabilidade na alimentação dos seres vivos.
Deixou-nos como legado, exemplos de desinteresse pessoal em tudo o que fazia,
além do grande conhecimento da química, que nos permite hoje, preparar uma solução
aquosa de nutrientes, para podermos com ela nutrir plantas que nos servirão de alimento,
ou seja, praticar a Hidroponia.
Apesar dos princípios hidroponicos já começarem a tomar corpo, mesmo como prática laboratorial, nos anos de 1800 e mesmo em boa parte dos anos de 1900, resultado de
milenios de uso, adubar o solo com resíduos orgânicos, era a prática mais convencional
para se obterem melhores e maiores colheitas.
Mesmo os químicos dessas épocas, acreditavam plenamente que pelo "Princípio
da Vegetação", os nutrientes essenciais necessários ao desenvolvimento das plantas,
deveriam ser de natureza orgânica, e não, mineral.
E estes princípios eram mantidos rìgidamente, apesar de os químicos, os botânicos, e os fisiologistas de plantas, já terem pleno conhecimento de que os elementos constituintes das plantas, na sua maioria, eram minerais.
Convém notar, que os conhecimentos da Química Orgânica, nessas épocas, eram
relativamente pequenos, pelo que a parte orgânica constituinte das plantas, era bastante
desconhecida. Ainda hoje, os constituintes orgânicos das plantas são alvo de grandes
pesquisas.
No entanto, o trabalho dedicado dos fisiologistas das plantas, nunca parou, tanto
aquele levado a efeito por mestres da ciência, quanto o concretizado por aqueles que se
atinham ao lado experimental.
É o caso Jean-Baptiste Joseph Dieudonné Boussigault (1802 a 1887), ou Jean
Boussingault, como é mais conhecido.
Jean-Baptiste Boussingault nasceu em Paris a 2 de Fevereiro de 1802, e nessa
mesma cidade, em 11 de Maio de 1887, decidiu tornar-se um químico, mineralogista e
agrônomo da França.
Filho de um velho soldado que possuía uma tabacaria, e era burgomestre de Wetzlar, incapaz de suportar os liceus napoleonicos, formou-se de forma autodidata seguindo
os cursos públicos do Collège de France e do “Museum”.
Freqüentou desde a sua fundação a École des Mineurs de Saint-Étienne (atual École Nationale Superiéure des Mines de Saint Étienne), onde conheceu Benoît Fourneyron, com quem descobriu a qualidade do laboratório de química dessa instituição.
O diretor da escola, Louis-Antoine Beaunier, entusiasmado por sua capacidade
científica, confia-lhe uma série de experiências, e dentro delas, demonstra que o aço de
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Manual de Hidroponia
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qualidade elevada, deve conter Silício na sua composição.
Simon Bolívar, desejando fundar na Colômbia um estabelecimento para formação
de engenheiros, recebeu por parte de Alexander Von Humbolt a recomendação de Boussingault.
Assim, ele parte para a América do Sul em 1821, encontra-se com Bolívar em Bogotá em Maio de 1822, e é imediatamente nomeado para o seu Estado Maior.
Ràpidamente inicia uma série de observações científicas, cujo resultado se concretiza na sua nomeação, em 1827, para dirigir uma companhia inglesa de exploração de
uma mina de ouro.
No entanto continuou sempre suas pesquisas científicas, não só na Colômbia, mas
também na Venezuela e Equador, as quais se prolongaram por mais de dez anos.
Na América do Sul, viveu numa época de turbulências revolucionárias, tendo participado de várias ações de guerra, pelo que dentro do exército de Simon Bolívar, alcançou
o posto de Coronel.
Na Venezuela estudou diversas fontes termais, coletou amostras de rochas e minerais, descreveu a primeira espécie mineral nova para esse país, a Gaylussita. Além disso, realizou diversas observações barométricas e Botânicas.
Retornando à França, é eleito para a Academie Des Sciences em 1839, e logo após, catedrático da cadeira de Economia Rural no Conservatoire National Des Arts Et
Mètiers, cadeira essa especialmente criada para ele.
Por seu casamento com uma Alsaciana, torna-se co-proprietário do domínio de
Bechelbronne, o que lhe permite dedicar-se a experimentos na agricultura, cujos resultados o tornam o fundador da química agrícola moderna.
Tornou-se conhecido por suas descobertas sôbre a absorção de Nitrogenio pelas
plantas.
Com a colaboração de Dumas, faz pesquisas sôbre a composição do ar atmosférico, sôbre a composição dos vegetais, sôbre a alimentação de herbívoros e sôbre a detecção do Arsenico.
Seu livro L’Économie Rurale, tornou-se uma sensação em 1843, e o consagra como o primeiro químico agrícola no mundo dessa época.
Entre 1860 e 1891, publica uma série de trabalhos sob o título Agronomie, Chimie
Agricole Et Physiologie, que ràpidamente foi traduzido para o Inglês e para o Alemão.
Em seus estudos sôbre Química Agrícola, usou plantas cultivadas em soluções aquosas de nutrientes provenientes do solo, e outras de composição bem determinada.
Para facilitar seu trabalho na sustentação das plantas, experimentou ancorá-las em
substratos inertes, como areia, grânulos de quartzo e carvão, mantendo as raízes constantemente umedecidas com a solução de nutrientes, no que teve pleno êxito.
Esta prática foi a predecessora do Sistema Hidroponico em Substratos, a qual seria
anos mais tarde usada pelo Dr. William Frederick Gericke.
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Manual de Hidroponia
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Confirmou que a água é essencial ao desenvolvimento das plantas, pois é dela que
elas retiram Oxigenio e Hidrogenio.
Analisando a matéria seca vegetal, verificou que esta era essencialmente constituída por Oxigenio, Hidrogenio e Carbono, bem como de outros elementos minerais que provinham do solo, dissolvidos na água que usava.
Em análises constantes da matéria sêca das plantas, determinou quais os elementos minerais encontrados nas mesmas, e em que proporção estes são encontrados nas
diversas fases de seu desenvolvimento.
Passou então a compor sua solução de nutrientes, e a corrigi-la conforme as necessidades das plantas, para otimizar o seu desenvolvimento.
Foi grande pesquisador da utilização dos "guanos" provenientes da América do
Sul, e comprovou que a forma mais adequada para suprir as plantas com Nitrogenio, eram os nitratos.
Estudou e pesquisou profundamente a adubação orgânica de solos, até então a
única utilizada, consequência do rígido conceito do "Princípio da Vegetação", e verificou
que os guanos, aliados aos resíduos orgânicos compostados, eram adubos de alto valor,
uma vez que eram essencialmente constituídos de nitratos.
Apesar de se haver chegado a grandes produções com as adubações tradicionais,
as fontes desses adubos eram relativamente escassas, e nessa época, já havia uma preocupação na produção de alimentos, em função do crescimento populacional do mundo
mais civilizado.
Mas esta forma de pensamento, baseada na adubação orgânica, começou a mudar
a partir de Liebig.
Justus von Liebig, nasceu na Alemanha, em Darmstadt no ano de 1803. Filho de
um droguista (vendedor de produtos químicos), e produtor de tintas e pigmentos, Liebig
despertou-se para a química na loja e fábrica de seu pai.
Mesmo em casa, estava sob a influência do ambiente da Química, e começou a
adquirir conhecimentos esparsos sobre esta ciência em livros que lia, adicionados a conhecimentos verbais adquiridos com clientes, e mesmo em feiras e exposições.
Consequência do seu trabalho teve que abandonar a escola secundária com apenas 16 anos, retornando ao estudo de química e farmacologia, em 1820, recebendo seu
doutorado em 1822.
Mudou-se para Paris, para continuar seus estudos junto aos melhores professores
da época, tendo estagiado e permanecido como funcionário do laboratório particular de
Gay Lussac, o mais conceituado químico da época.
Neste laboratório, seu trabalho com o ácido fulmínico, levou seu nome ao conhecimento do mundo da química.
Assim foi que, por insistente recomendação de Alexander von Humboldt junto ao
Grão Duque de Hessen, Liebig foi nomeado professor extraordinário de química, na Universidade de Giessen, em 1824.
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Já em 1825, Liebig era apontado como o melhor, o mais perfeito e o mais organizado professor da Universidade.
Implantou em seu curso, o sistema de instrução experimental, pelo qual elevava a
química a uma ciência natural precisa, e transformou seu laboratório num centro de ensino, de treinamento e de pesquisa, no qual colocava seus alunos em participação direta e
ativa.
Fig. 1.35 Justus Von Liebig (1802 a 1873)
Este sistema, ràpidamente se espalhou pelo mundo, passando a ser utilizado em
todos os ramos de pesquisa experimental científica.
Dedicou-se com afinco ao estudo da química orgânica, desenvolvendo um sistema
e aparelhagem, que permitiam análise dos produtos orgânicos 40 vezes mais rápido do
que os sistemas até então conhecidos.
Pelo seu trabalho, até hoje é conhecido como o pai da química orgânica, e foi considerado o maior químico de sua época.
Emitiu a teoria dos radicais químicos (em conjunto com Friedrich Woehler, professor de química da Universidade de Berlim, e posteriormente na Universidade de Goettingen), descobriu a isomeria e a polivalência dos elementos químicos.
Seu maior trabalho foi dedicado à química agrícola, e em 1840, publicou sua obra
Agrikulturchemie (Química Agrícola), onde descreve seus trabalhos sobre a aplicação da
química orgânica à agricultura e à fisiologia vegetal.
Pesquisou e desenvolveu todo um trabalho sôbre nutrição de plantas e fertilidade
de solos, derrubando a teoria do "Princípio da Vegetação" e a "Teoria do Húmus", e com66
Manual de Hidroponia
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provou a necessidade das plantas, de elementos minerais retirados do solo, Carbono do
gás carbonico, e Oxigenio e Hidrogenio da água.
Liebig, no entanto, acreditava que as plantas retiravam o Nitrogenio do ar, o que
até certo ponto é verdade, para alguns legumes. Desconhecia que a fixação de Nitrogenio do ar é feita através das bactérias do solo.
Emitiu então a "Lei dos Mínimos", que estabelece serem as produções agrícolas,
proporcionais à quantidade do nutriente mais limitante, qualquer que seja ele.
Por esta lei, conclui-se que, se fornecermos ao solo o nutriente deficitário, aumentaremos a produção de determinado plantio ao máximo que dito solo pode produzir, até
ao ponto em que outro nutriente passe a ser deficitário, aplicando-se então a mesma lei, a
este último nutriente.
Em consequência disto, Liebig formulou e produziu os primeiros adubos químicos
compostos, bem como desenvolveu os diversos processos de produção de seus constituintes.
Justus Von Liebig, foi o "Pai da Química Orgânica", e revolucionou completamente
os conhecimentos químicos do mundo. Foi o criador dos processos de adubação de solos que usamos até hoje.
E ainda durante sua vida, emitiu os princípios básicos da reciclagem de resíduos
agrícolas, criando então o que chamamos hoje de "Agricultura Alternativa".
Em sua homenagem, após a Segunda Guerra Mundial, foi dado seu nome à então
Universidade de Giessen, que hoje se chama Universidade Liebig, e, em 1955, o ex- presidente alemão, Prof. Theodor Heuss, falando de Liebig, disse "Nenhuma outra pessoa
deu a tantas outras, a possibilidade de viver".
Na Universidade Liebig, no prédio onde Justus trabalhava, foi montado o Museu
Liebig, onde os móveis e os equipamentos expostos são os originais usados pelo cientista. Suas salas de trabalho, também foram mantidas intactas.
Em sua homenagem, e pelo valor que desempenhou na química orgânica, seu aparelho de vidro com cinco esferas, usado para análise de compostos orgânicos, o chamado "Kaliapparat", foi incorporado ao brasão da "American Chemical Society".
Hoje, podemos adubar solos com facilidade e com adubos corretamente formulados. Podemos analisar com certa facilidade e rapidez os compostos orgânicos que compõem as plantas. Podemos fazer análises de solo corretas, e baseados nelas, corrigir as
deficiências de nutrientes de acôrdo com o cultivo que vamos efetuar.
Podemos ainda, formular uma solução de nutrientes para hidroponia, de forma equilibrada, para que produza os efeitos que desejamos para nossos cultivos.
Tudo isso, devemos a Justus Von Liebig, falecido em Munchen, na Alemanha, em
Abril de 1873. A Hidroponia deve-lhe muito, e como tantos outros, Liebig é parte de sua
História.
O trabalho e as descobertas de Liebig calaram em vários cientistas, de maneira
muito profunda.
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Enquanto Liebig se dedicava ao seu trabalho, dirigido à química agrícola, em 1856,
Salm Horsmar, desenvolvia um trabalho paralelo.
Procurou desenvolver e aperfeiçoar as técnicas de culturas de plantas em substratos inertes umedecidos com soluções de nutrientes, já verificadas por alguns cientistas,
dos quais Boussingault foi pioneiro.
Assim é que aperfeiçoou as composições das soluções de nutrientes, usando ago
ra, sempre, sais minerais já disponíveis.
Fig. 1.36 Laboratório de Fisiologia e Química Analítica de Justus von Liebig (Museu Liebig - Giessen - Alemanha)
Da mesma forma, desenvolveu sistemas simples e eficientes para fixar as plantas,
o que lhe permitia regredir, eliminando os substratos inertes, e conduzindo seus cultivos
exclusivamente na água adicionada dos nutrientes.
Apesar de Liebig ter utilizado culturas em soluções aquosas de nutrientes em muitas de suas pesquisas, não chegou, ou talvez não se tenha dedicado a um trabalho mais
profundo sobre elas, tanto que nada publicou a esse respeito.
E seja pelo trabalho de Boussingault, seja pelo de Salm Horsmar, já se delineava
um caminho bem determinado nos cultivos de plantas em soluções de nutrientes, embora
tudo mostrasse que tais cultivos ficassem a níveis laboratoriais, pois de certo modo facilitavam o trabalho dos cientistas, especialmente aqueles que se dedicavam ao estudo de
nutrição das plantas.
Havia, no entanto, uma série de dúvidas, sobre as composições químicas de tais
soluções, que aparentemente precisariam de um certo monitoramento, pois seu comportamento diferia daquele do solo, onde normalmente havia sempre um excedente de nutrientes, regulados por componentes nele existentes, e até então muito desconhecidos.
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No entanto, as definições concretas sobre as soluções de nutrientes, começaram a
aparecer em 1860, através de um contemporâneo de Liebig e estudioso de seus trabalhos, Julius Von Sachs (1832 a 1897).
Fundador da Fisiologia Experimental das Plantas, Julius Von Sachs nasceu na Alemanha, em 1832, e faleceu em 1897.
Fig. 1.37 Julius Von Sachs (1832 a 1897)
Foi professor e pesquisador da Universidade de Wurrzburg, onde inventou e projetou inúmeros dispositivos, tanto para estudo dos processos fisiológicos das plantas, quanto para análise quantitativa de seus componentes.
Os livros que escreveu, eram de tal forma bem ilustrados, e com desenhos detalhados com tanta precisão, que imediatamente se tornaram livros padrão para ensino em
todas as escolas de botânica do mundo. Ainda hoje, as ilustrações de tais livros, são
copiadas para ilustrar trabalhos e livros de outros autores.
Em 1868, publicou "Textos Sôbre Botânica" (Lehrbuch der Botanik), em 1875, "História da Botânica" (Geschichte der Botanik) e, em 1882, "Leituras Sôbre Fisiologia das
Plantas" (Vorlesungen Uber Pflanzenphysiologie).
A quase totalidade das plantas que utilizou para pesquisas laboratoriais, foram cultivadas em soluções aquosas de nutrientes, utilizando-se das técnicas descobertas e desenvolvidas de Boussingault e Horsmar.
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Sachs trabalhou muito em conjunto com W. Knop (1860), químico agrícola, no aperfeiçoamento das soluções aquosas de nutrientes.
E finalmente, em 1860, Julius Von Sachs publicou a composição padrão de uma
solução de nutrientes, na qual as plantas poderiam ser cultivadas com sucesso.
Isto marcou, o final de uma longa pesquisa na busca do conjunto e proporções dos
nutrientes vitais para as plantas, e na verdade, deu um parâmetro de partida não só para
o aperfeiçoamento das soluções de nutrientes, como também para o início de uma nova
tecnologia.
W. Knop foi chamado o "Pai da Cultura na Água", e as descobertas de Julius Von
Sachs, marcaram o início da "Nutricultura". Técnicas similares estão em uso até hoje,
em estudos laboratoriais sobre fisiologia e nutrição das plantas.
Estas investigações sobre nutrição das plantas, que hoje podemos dizer que foram
preliminares, demonstraram que é possível conseguir o desenvolvimento normal de uma
planta, imergindo suas raízes numa solução aquosa de sais de Nitrogenio, Fósforo, Enxofre, Potássio, Cálcio e Magnésio.
Estes elementos, passaram a ser chamados de Macroelementos, ou Macronutrientes, ou seja, elementosnecessários em quantidades relativamente grandes.
Com posteriores refinamentos nas técnicas de laboratório, e pelo desenvolvimento
cada vez maior dos conhecimentos da química, os cientistas descobriram sete elementos
mais, também necessários às plantas, em quantidades relativamente pequenas, e que
foram definidos como Microelementos, ou elementos traço.
Nestes, estão incluídos o Ferro, o Cloro, o Manganês, o Boro, o Zinco, o Cobre e o
Molibdenio.
Após o falecimento de Julius Von Sachs, a Universidade de Wurrzburg criou o hoje
mundialmente famoso "Instituto Julius Von Sachs de Ciências Biológicas", e reestruturou
o seu Jardim Botânico.
Além do Departamento de Pesquisas Especiais, o Instituto proporciona cursos de
especialização em Biofísica, Fisiologia Molecular, Ecofisiologia, Ecologia Vegetal, e Farmácia Biológica, entre outros.
Uma vez descoberto que a água adicionada dos elementos químicos selecionados,
e nas quantidades equilibradas, suportam a vida das plantas, em 1920 foram estabelecidos padrões para a preparação laboratorial de culturas em água, bem como os métodos
para sua utilização.
Muitos pesquisadores desenvolveram várias fórmulas básicas para nutrição de
plantas. Dentre eles, podemos destacar Tollens (1882), Tottingham (1914), Shive (1915),
Hoagland (1919), Deutchmann (1932), Trelease (1933), Arnon (1938) e Robbins (1946).
Muitas de suas fórmulas são usadas até hoje, em trabalhos de laboratório nas pesquisas de fisiologia e nutrição de plantas.
Como já mencionamos anteriormente, Shieve, já verificara, que as soluções de nutrientes, necessitavam ser cuidadosamente monitoradas, para que as culturas em água
tivessem o sucesso desejado.
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O monitoramento, tanto era necessário sobre a sua composição química, quanto
sobre sua reação ácida ou alcalina.
A reação ácida ou alcalina de solos, já havia sido mencionada profundamente por
Boussingault, e já começava a ser prática utilizada, fazer-se a sua correção para propiciar
as melhores condições ao desenvolvimento das culturas.
A partir da descoberta de Boyle, quanto à mudança de cor do extrato de flores de
violetas, frente a ácidos ou álcalis, outros indicadores foram descobertos.
Fig. 1.38 Soren Peter Lauritz Sorensen (1868 a 1939)
Porém, o que podia concluir-se quando eram usados, era que determinada solução
era mais ácida ou menos ácida, ou mais alcalina ou menos alcalina, podendo ainda verificar-se a reação neutra.
Mesmo pelo desenvolvimento das propostas de Svante Arrhenius em 1880, de Wilhelm Ostwald em 1894, e de H. Friedenthal em 1904, os quais trabalharam desde a aplicação da Lei de Ação das Massas, até aos cálculos de constantes de dissociação ionica,
o problema ainda persistia.
Não havia uma escala lógica para medição, apesar de os cientistas citados, sem o
notarem, já começassem a delineá-la, especialmente a partir da recomendação de Friedenthal, para que se usasse a concentração ionica do Hidrogenio para caracterizar as
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soluções.
Definida uma escala, poderiam, então fazer-se medições mais precisas da acidez e
ou alcalinidade das soluções.
A escala de medição foi finalmente resolvida em 1909, pelo cientista dinamarquês,
Soren Peter Lauritz Sorensen (1868 a 1939), quando propôs a conotação do "pondus Hidrogenii" (potencial de Hidrogenio), que abreviou como pH, e definiu como sendo o cologaritmo da concentração hidrogenionica de uma solução.
Por sua definição, a acidez e ou alcalinidade de uma solução, poderia medir-se
numa escala adimensional, que varia de 1 até 14.
Os indicadores colorimétricos passaram então a ter incorporados padrões de cor,
baseados nas concentrações de soluções padrão preparadas com precisão.
Fig. 1.39 Fritz Haber (1868 a 1934)
Sem dúvida, que a precisão na verificação do pH de uma solução, dependeria
sempre não só da habilidade do operador, como também de sua acuidade visual, problema que finalmente foi resolvido pelas descobertas de Fritz Haber.
Fritz Haber, nasceu na Alemanha, em Breslau, em 9 de Dezembro de 1868, filho
de, Siegfried Haber, e de Paula Haber. Seu pai, de antiga e tradicional família, era um
próspero comerciante de produtos químicos.
Sua mãe faleceu durante o parto, pelo que foi filho único durante os primeiros anos
de sua vida, até o segundo casamento do pai, do qual teve três irmãs que lhe devotaram
muito afeto, embora fosse sempre dez anos mais velho do que sua irmã mais velha.
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Foi um enteado muito devotado e amoroso, e era seu hábito presentear a madrasta
com lírios brancos na época do Natal.
Frequentou a escola primária pública durante três anos, e posteriormente o ensino
secundário na escola St. Elizabeth em Breslau.
O currículo desta escola estava centrado em Humanidades, pelo que estudou Latim, Grego, Literatura e Filosofia. O pouco que lhe era ensinado em ciências, era uma
mistura de Religião, Filosofia, e um estudo da natureza a que chamavam História.
Consequentemente, Fritz desenvolveu grande interesse por Literatura e Filosofia, o
que manteve durante toda a sua vida. Seu poeta preferido era Goethe e o filósofo de sua
preferência era Kant.
Como era típico dos homens de sua época, acreditava fortemente no progresso e
iluminação da mente através da cultura.
Já durante o ensino secundário, conduzia seus experimentos em química.
Aos dezoito anos ingressou na Universidade de Berlim, e esta universidade era o
celeiro de cientistas e mestres como Helmhots, grande pensador, filósofo, e estudioso da
metodologia das ciências, que também era físico e fisiologista.
De 1886 a 1891, estudou Química na Universidade de Heidelberg, sob a orientação
de Bunsen. Estudou ainda na Universidade de Berlim, sob a orientação de A. W. Hoffmann, e na Escola Técnica de Charlottenberg sob a orientação de Liebermann, e após o
término de seus estudos, trabalhou voluntàriamente com seu pai, durante algum tempo.
Passou depois a trabalhar no "Instituto de Tecnologia de Zurique", junto ao Professor Georg Lunge, onde decidiu seguir a carreira científica.
Para tanto, trabalhou com Ludwig Knorr em Jena, com quem publicou um trabalho
de estudo do éster diacetosuccínico.
Ainda incerto quanto ao dedicar-se à Química ou à Física, em 1894 aceitou o cargo
de professor assistente do Prof. Hans Bunte, catedrático de Tecnologia Química, na Universidade de Karlsuhe, aí permanecendo até 1911.
Hans Bunte pesquisava Química da Combustão, e seu companheiro de trabalho,
Carl Engler, introduziu Haber ao estudo do petróleo, o que muito iria influenciar seus trabalhos futuros.
Em 1896, Haber foi qualificado como "Privatdozent" (Livre Docente), consequência
de sua tese sobre combustão de hidrocarbonetos, e em 1906, foi nomeado Professor de
Fisico-Química e Eletroquímica, além do que, também foi nomeado Diretor do Instituto
criado em Karlsuhe, para o estudo destes temas.
Em 1911, foi apontado para suceder Engler como Diretor do Instituto de Física e
Eletroquímica em Berlim-Dahalen, aí permanecendo até 1933, quando as leis racistas do
Nazismo obrigaram à demissão de todos os seus colaboradores, em apoio aos quais Haber também se demitiu.
Foi então convidado por Sir William Pope a ir para Cambridge, na Inglaterra, onde
permaneceu por pouco tempo, pois era cardíaco, e tinha receio dos invernos rigorosos.
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Manual de Hidroponia
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desse país. E assim, mudou-se para a Suíça.
Em 1898, Haber publicou seu primeiro livro de textos sobre Eletroquímica, baseado
em suas conferências na Universidade de Karlsuhe, e nesse trabalho, expressou suas
intenções de dedicar-se à pesquisa da Química para processos industriais.
No mesmo ano, já publicava os resultados de seu trabalho nos processos eletrolíticos de oxi-redução, e nos anos seguintes trabalhou na eletrólise de sais sólidos fundidos
(1904), no processo de equilíbrio catódico da Quinona-Hidroquinona, o que abriu o caminho para que Billman descobrisse o eletrodo para determinação eletrométrica da acidez
de líquidos.
No entanto, em colaboração com Cremer, Haber inventou o eletrodo de vidro para
a mesma finalidade, o qual é até hoje usado para a medição eletrométrica do pH, dentro
da escala proposta por Soren P. L. Sorensen, com elevado grau de precisão, numa escala numérica visível, através dos conhecidos pH-metros.
Resolvia-se assim, o problema da medição do pH das soluções de nutrientes, de
forma fácil, precisa, rápida, e acessível para qualquer operador laboratorial.
Mesmo assim seu trabalho não parou, embora muitas vezes lamentasse a utilização do "gás mostarda" (dicloro-dietil-sulfeto), de seu descobrimento, durante a Primeira
Guerra Mundial.
Mas, em sua máxima, dizia: "Em tempos de guerra, um cientista pertence à sua
pátria, e em tempos de paz, pertence à humanidade".
Porém a grande descoberta de Haber, que mais uma vez o relaciona profundamente à Hidroponia e à agricultura como um todo, foi a síntese do amonio, a partir do Nitrogenio e do Hidrogenio gasosos, retirados do ar.
Isto valeu-lhe o Prémio Nobel de Química em 1918, o qual, consequência da Primeira Guerra Mundial, só veio a receber em 1919.
Quando em 1905, publicou seu trabalho sobre termodinâmica das reações dos gases, já mencionava que tinha conseguido pequenas quantidades de amonio, partindo de
o
Nitrogenio e Hidrogenio, aquecidos a 1000 C, usando Ferro como catalisador.
Posteriormente a estas experiências, tendo como colaboradores Bosch e Mittasch,
em função da experiência que já tinha com gases sob alta pressão, passou a pesquisar
outros catalisadores para a sua reação, sendo que agora, ele a conduzia à pressão de
o
150 a 200 Bar, e à temperatura de 500 C.
O processo funcionou perfeitamente, e daqui, surgiu a "Oppau und Leuna Ammonia Werken", o que permitiu à Alemanha prolongar a Primeira Guerra Mundial, quando
falharam seus suprimentos normais de nitratos, provenientes dos depósitos de guanos do
Chile, para fabricação de explosivos.
Com algumas modificações neste processo, Haber conseguiu também a produção
em escala industrial, de Sulfato de Amonio, para uso como fertilizante agrícola.
O mesmo princípio usado por Haber nestes processos, com desenvolvimento de
outros catalisadores, permitiu a Alwin Mittasch a síntese do Álcool Metílico em nível indus74
Manual de Hidroponia
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trial.
Permitiu ainda o desenvolvimento do processo de Bergius para a Hidrogenação do
Carvão, e a produção de Ácido Nítrico, também a nível industrial.
E é consequência destes trabalhos e descobertas de Fritz Haber, que hoje, os hidroponistas e também os agricultores de forma geral, podem contar com Sulfato de Amonio, Nitrato de Cálcio e Nitrato de Potássio, nas quantidades que necessitam.
Haber viveu para a ciência, seja por satisfação pessoal, seja pela influência que
tinha na moldagem da cultura e da civilização humana.
Versátil em seus talentos possuía um conhecimento espantoso de política, história,
economia e indústria, e, certamente, teria tido sucesso igual em outros campos de atividade, pelo que não é de admirar os premios e lauréis que recebeu durante toda a sua
vida, afora o Prémio Nobel.
Por ser de descendência judaica, foi expulso da Alemanha em consequência das
leis de pureza racial de Nuremberg, junto com Einstein, Freud e outros.
Após o término da Primeira Guerra Mundial, foi considerado criminoso de guerra
pelas Forças Aliadas, mas não chegou a ser processado.
Depois de grave doença, veio a falecer em 29 de Janeiro de 1934, durante uma
viagem da Inglaterra para a Suiça, onde iria convalescer. Morreu inconformado pela rejeição que a Alemanha lhe dedicou, país que tão bem serviu.
Porém, o interesse pela Nutricultura, no sentido prático de sua aplicação, sòmente
começou em 1925, através das indústrias de estufas agrícolas.
O solo das estufas precisa ser substituído periòdicamente, para poderem resolverse problemas com sua estrutura, pragas, e fertilidade.
Em consequência disto, os pesquisadores começaram a tomar ciência do potencial
da utilização da Nutricultura, para substituir as culturas convencionais em solos de estufas.
Até 1930, a maior parte do trabalho desenvolvido com culturas sem solo, foi sempre orientado no sentido dos experimentos laboratoriais com plantas.
Nutricultura, Hidrocultura e Quimicultura foram outros têrmos usados entre 1920 e
1930, para descrever as culturas sem solo, e entre 1925 e 1935, houve um extenso desenvolvimento e grandes modificações nas técnicas laboratoriais, visando sua aplicação
nas produções em larga escala.
E é entre o final de 1929 e início de 1930, que o Dr. William Frederick Gericke, engenheiro agronomo e professor de nutrição de plantas na Universidade da Califórnia, em
Berkeley nos Estados Unidos, extendeu seus trabalhos laboratoriais sôbre nutrição de
plantas, para plantações desenvolvidas em campo, visando aplicações comerciais.
lar.
da.
Não sabemos muito sôbre a vida de Gericke, seja a nível familiar, seja a nível escoAté na Universidade da Califórnia, onde trabalhou, pouco se registrou sôbre sua vi-
75
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Fig. 1.40 Dr. William Frederick Gericke e seus tomateiros
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Nasceu em uma fazenda em Nebraska, foi educado no estado de Ohio, em Johns
Hopkings e na Califórnia.
Seus experimentos sôbre culturas em soluções nutritivas, iniciados em 1927, foram
levados a efeito na Estação Experimental de Berkeley, da Universidade da Califórnia, e
seus tanques de cultura, inicialmente, na sua maioria eram ao ar livre.
Fig. 1.41 Dr. William Frederick Gericke – Detalhe da Fig. 1.40
Cultivou hidroponicamente inúmeras espécies de plantas, especialmente tomateiros, batatas, tabaco, gladíolos, begônias e outras tantas, sendo que sempre expressou
seu favoritismo pela produção de tomates.
Uma das plantas de que se orgulhava, era uma bananeira que crescia hidroponicamente até ao cume de uma de suas estufas.
Em Abril de 1937, numa entrevista para a revista Time, discutiu e expressou sua
preocupação em dar um nome para sua técnica de cultivo.
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Aqui, acreditamos que desempenhou um grande papel, seu colega de corpo docente da Universidade, o Dr. William Albert Setchell.
Setchell nasceu em Norwich – Connecticut - USA em 15 de Abril de 1864.
Formou-se em Botânica na Universidade de Yale, e obteve seu Ph.D. também em
Botânica na Universidade de Harvard.
De 1890 a 1895, lecionou Biologia e Botânica em Yale, e de 1895 a 1934 foi professor e diretor do departamento de Botânica na Universidade da Califórnia em Berkeley,
quando se tornou colega e amigo de Gericke.
O maior interesse científico de Setchell era o estudo de algas, e neste assunto tornou-se uma grande autoridade mundial.
Fig. 1.42 William Albert Setchell (1864 – 1943)
Suas pesquisas e investigações estenderam-se pela Morfologia, Sistemática, Ecologia e Biogeografia de Grupos.
Dentre suas contribuições científicas, uma das mais importantes foi o estudo e elucidação do papel das algas na formação dos recifes de corais.
Na Biogeografia revelou-se ser um seguidor dos pensamentos Humboltidianos,
especialmente nos seus exames da relação entre os gradientes de temperatura e a distribuição de matrizes não só de algas, mas também de plantas terrestres vasculares.
Participou de várias expedições científicas para coleta de dados e amostras, ao
Alaska, ao Hawai, a Samoa, à Indo-Austrália, ao Japão e à África.
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Veio a falecer em Berkeley – Califórnia, em 5 de Abril de 1943.
A tendência de Gericke, era para chamar sua técnica de cultivo de “Aquaculture”
(Aquacultura), e foi aconselhado por Setchell a não usar esse nome.
Setchell aconselhou-o a que usasse o termo Hydroponics (Hidroponia), do grego
“hydro” significando água, mais o termo “ponos” significando trabalho.
Gericke gostou dêsse nome, porque, como dizia, “é uma conotação forte, economica e útil e, além disso, lembra a palavra “Geoponics (Geoponya), o termo usado na Idade
Média para conotar Agricultura”.
Isto gerou um mito que permanece até hoje, pelo qual se credita a Gericke a invenção da palavra Hydroponics (Hidroponia).
Na verdade, Hidroponia é uma palavra comum do idioma grego, e pode ser encontrada em qualquer dicionário, seja do grego antigo seja do grego atual.
Assim, Hydroponics é na verdade a tradução para o Inglês da palavra grega "HYDROPONYA", cuja etimologia, em grego, é a associação das palavras "HYDOR", com
"PONOS".
Note-se que em Grego, água é Hydor, e não Hydro. Além disso, no Grego atual,
Ponos significa dor, e no Grego antigo, Ponos significa trabalho, no sentido do "resultado
de um trabalho físico executado" (ex.: o quadro executado por um pintor, ou o livro escrito
por um escritor). Assim, o termo usado é Ponos do grego antigo.
Devemos notar também que em Grego, Hydor é uma palavra do genero feminino.
Por outro lado, Ponos apresenta três generos, a saber, Masculino, Feminino e Neutro, respectivamente, Ponos, Ponya e Ponion.
Em Grego, para juntar duas palavras e formar uma palavra composta, ambas necessitam estar no mesmo genero, e assim temos que usar as palavras HYDOR + PONYA.
Ainda considerando a etimologia grega, ao juntar estas duas palavras, o OR final
de HYDOR, é invertido para RO, e assim teremos finalmente a palavra HYDROPONYA.
Na tradução para o Inglês, os “Y”s permanecem, e PONYA é traduzido para “ponics”, de onde o termo HYDROPONICS usado nas línguas britânicas.
Nas línguas latinas, o “Y”s são substituídos por “I”s, e temos finalmente HIDROPONIA.
É bom lembrar que antigamente tanto em Portugal como no Brasil, o “Y” era conhecido como “I grego”, e ainda que em Grego, existem cinco “I”s. Conforme o “I” utilizado, uma mesma palavra grega pode ter cinco significados diferentes.
Vemos assim, que foi o Dr. William Albert Setchell, e não o Dr. William Frederick
Gericke, quem denominou a nova técnica agrícola como Hidroponia. Também vemos
que nem Setchell nem Gericke inventaram ou formaram essa palavra.
Quizemos aqui simplesmente esclarecer nosso leitor, e quem sabe, quebrar esse
mito, que acreditamos permanecerá por muito tempo, senão para sempre.
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O sucesso do trabalho de Gericke foi muito grande, e na época, vários agricultores
abraçaram a nova técnica, além de se desenvolverem vários centros de pesquisa sôbre
hidroponia em outras universidades.
Nosso cientista tinha até um fã clube, no qual chegava a receber 500 cartas por
semana.
Sabe-se também que tentou patentear a sua técnica, mas nisso não teve sucesso,
pois que a hidroponia é uma técnica agrícola, e como tal, é de domínio público. Conseguiu apenas patentear um tanque para dissolução dos sais minerais usados na preparação das soluções nutritivas.
Quando inquirido sôbre se desejava fazer fortuna com sua invenção, apenas sorria,
mostrando seus dois dentes de ouro. Jamais cobrou taxas de consultoria de ninguém, e
sempre dizia: “Tudo o que eu quero é que tenham sucesso e ganhem dinheiro para que
possam ajudar-me a prosseguir com minhas experiências”.
Mas nem tudo foram brancas nuvens no seu trabalho.
Imediatamente após o início da utilização de sua técnica por vários agricultores, algumas companhias começaram a vender sais nutrientes e misturas de sais para agricultores amadores e para alguns profissionais.
Dentre elas estavam a Chemi-Grow, a Chemi-Crop Co., a Shur-Gro Fertilizer Corp.,
além de outras. Embora estivessem legalmente dentro de seus direitos, pois que a hidroponia era uma técnica que não podia ser patenteada, Gericke não concordava com
elas, e tampouco tentava delas cobrar alguma licença, embora usassem seu nome.
Sempre declarou e as acusou pùblicamente de estarem vitimando pessoas inocentes oferecendo-lhes soluções milagrosas, pois que cada planta exigia sua própria solução
de nutrientes, e tais soluções não podiam ser generalizadas.
Era sempre necessário considerar climas, condições ambiente e manejo dessas
soluções quanto a pH e Condutividade Elétrica, bem como muitas vezes, aquecer a solução nutritiva, prática normalmente usada por Gericke.
Em 1934, contratou um fotógrafo, Arthur G. Pillsbury, o qual depois de fotografar
todas as suas hortas e plantas hidroponicas, dirigiu-se para Evanston – Illinois, onde angariou várias empresas interessadas, e entre elas um banqueiro e um advogado, para
entrarem no “negócio da hidroponia”.
Retornando a Berckeley, Pillsbury solicitou informações técnicas a Gericke, que se
negou a fornece-las.
Pillsbury foi então ao Deão do Colégio de Agricultura da Universidade, o qual lhe
forneceu alguns panfletos sôbre os trabalhos de Gericke, os quais estavam graciosamente disponíveis a quem os quisesse, e que continham algumas informações sôbre composições de soluções nutritivas, temperaturas de trabalho, aeração, etc.
Com isto, dizendo ter obtido informações sigilosas de Gericke, conseguiu incorporar-se à Chemical Garden Co., que passou a produzir e vender misturas de sais para soluções nutritivas, além de contratar um fisiologista de plantas treinado, e instalar tanques
hidroponicos para pesquisa.
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Ao saber do ocorrido, diz-se que Gericke simplesmente deu risadas.
O relacionamento de Gericke com seus colegas e seus superiores no Colégio de
Agricultura, também se tornou bastante tenso após a tecnologia que desenvolveu.
Gericke era frequentemente criticado, e seu trabalho na Universidade nunca foi
apreciado, sendo que frequentemente era tratado com sarcasmo.
Diziam com desprezo que por um lado, Gericke mantinha muito segredo de suas
pesquisas e desenvolvimentos técnicos, e por outro estava mais preocupado com publicidade e comercialização.
Afirmavam categòricamente que o uso científico da hidroponia deveria ser para o
aprendizado da fisiologia das plantas, e que as possibilidades de seu uso comercial não
podiam ser provadas, além de que as produtividades eram muito menores do que as obtidas no solo.
Tudo isto contrastava com as provas que Gericke apresentava de produtividades
muito maiores do que as obtidas no solo, e com a sua acessoria gratuita a quem o procurasse.
Talvez por estas dificuldades de relacionamento, poucos dos seus trabalhos foram
publicados pela Universidade, sendo um dos raros, denominado “Some Effects of Salts on
the Absortion of Water by Seeds”.
Através de uma editora não ligada à Universidade, em 1940, publicou o livro “The
Complete Guide to Soilless Gardening”, onde descreve seu trabalho de anos em cultivos
hidroponicos, obra até hoje necessária na biblioteca de qualquer pesquisador de hidroponia.
Dentre estes vários dissabores, no entanto, muitos apreciaram profundamente o
trabalho de nosso cientista.
No verão de 1937 o “National Resources Committee” incluiu a Hidroponia, junto
com as técnicas de ar condicionado, borracha sintética, televisão e máquinas colhedeiras
de algodão, como algumas das coisas que deveriam ser observadas no desenvolvimento
futuro da economia nacional americana.
E pela primeira vez, em Maio de 1938, a hidroponia sai das fronteiras continentais
dos Estados Unidos.
Mesmo considerando o ceticismo de muitos quanto ao valor comercial da hidroponia, e outros, considerando as recomendações do National Resources Committee, a Pan
American Airways, de modo acisado, decide pela instalação de hortas hidroponicas ao ar
livre na ilha de Wake.
Sua finalidade? Abastecer seu pessoal fixo e as suas aeronaves com frutas e verduras frescas, tudo sob a orientação graciosa do Dr. William Frederick Gericke.
O trabalho de Gericke, é considerado como a base de todas as formas de culturas
hidroponicas, embora estivesse primariamente limitado à cultura sem uso de nenhum método de enraizamento.
Tentamos aqui mostrar algumas facetas que conseguimos levantar da vida dêsse eminen81
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te cientista, a quem o mundo tanto deve, e como sói acontecer, incompreendido e desvalorizado até nos centros de pesquisa onde desenvolveu seu trabalho.
O termo Hidroponia, hoje, abrange um conceito mais amplo, sendo usado para
descrever os vários métodos pelos quais podemos cultivar plantas sem solo.
Consideramos solo, o substrato onde as plantas ancoram suas raízes, e de onde
retiram água e os nutrientes necessários ao seu desenvolvimento.
Estes métodos, muitas vezes também conhecidos como jardinagem sem solo, incluem a cultura de plantas em vasos com de água, junto com qualquer substrato inerte.
Esta água será sempre, na verdade, uma solução aquosa de nutrientes.
O substrato poderá ser cascalho, areia, vermiculite, além de outros mais exóticos,
tais como pedra britada, fragmentos de lava vulcânica, e mesmo, poliestireno expandido
(Styrofoam - Isopor), ou aparas de PVC (cloreto de polivinila).
Muitos métodos Hidroponicos usam substratos constituídos de matérias orgânicas,
que podem decompor-se, como a turfa ou a serragem de madeira, e neste caso, são
chamados de "Cultura Sem Solo".
A Hidroponia Verdadeira é o método pelo qual as plantas são cultivadas, usandose exclusivamente uma solução aquosa de nutrientes.
Há várias razões para substituir o solo por um meio estéril. As pragas provenientes do solo são eliminadas, bem como também o são, as ervas daninhas. Desta feita, o
trabalho na eliminação de tais ervas, bem como aquele dispendido na vigilância das plantas, é fortemente reduzido, quando não, eliminado.
Um dos fatores mais importantes da Hidroponia, é que, pela sua prática, podemos
aumentar a densidade de plantas, ou seja, podemos cultivar mais plantas por unidade de
área de cultura, a níveis maiores do que os permitidos no solo, razão pela qual esta técnica proporciona maior produtividade.
Pela Hidroponia, os grãos e frutas amadurecem muito mais rápido, e apresentam
maior rendimento.
O consumo de água é muito menor, e os fertilizantes nela dissolvidos, conservamse, e podem ser reutilizados.
Este processo permite que se exerça maior controle sobre as plantas, conseguindo-se com isso assegurar resultados mais uniformes, pois que se mantém um perfeito
relacionamento delas com seu meio de desenvolvimento.
As plantas não necessitam do solo, mas da reserva de água e nutrientes nele contidos, os quais necessàriamente deverão estar dissolvidos, para que estas consigam absorvê-los . Quanto ao resto, o solo servirá apenas como seu meio de suporte.
Quando plantamos num meio de crescimento inerte, sem reserva própria de nutrientes, podemos estar certos de que as plantas irão procurar seu alimento na solução nutritiva com que iremos umedecer tal meio.
A tendência do solo convencional, é permitir a lixiviação da água e nutrientes, para
longe das plantas, o que torna o processo de aplicação de adubos, uma tarefa difícil.
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Na Hidroponia, os nutrientes necessários são dissolvidos na água, e a solução resultante é aplicada às plantas nas doses exatas, em períodos de tempo exatos, e normalmente nas temperaturas ideais para as raízes.
O Dr. Gericke cultivou vários vegetais na água, incluindo os aproveitados pelas raízes, como beterrabas, rabanetes e cenouras, e os aproveitados pelos tubérculos, como
batatas.
Além dêsses, plantou os aproveitados pelos frutos, como tomates, e os aproveitados pelas sementes, como milho, e outros cereais, bem como inúmeras espécies florais.
Usando cultura em água, em grandes tanques, no seu laboratório na Universidade
da Califórnia, teve grande sucesso na produção de tomates, cujas plantas chegavam a
oito metros de altura.
Na época, os jornais americanos publicaram fotografias mostrando o Dr. Gericke
em cima de uma escada, para atingir o topo de seus tomateiros.
Apesar de muito espetacular, seu sistema era prematuro para aplicações comerciais, pois apresentava-se muito sensível, exigindo monitoramento técnico constante.
Muitos que se propuseram a ser futuros hidroponistas, tiveram inúmeros problemas
com o sistema Gericke, pois este exigia grandes conhecimentos técnicos.
Além desses conhecimentos ainda não serem acessíveis a qualquer um, o sistema
exigia também bastante engenhosidade na sua construção.
Mesmo assim, a imprensa americana fez o seu habitual estardalhaço, dizendo que
havia sido feita a descoberta do século, no que não deixava de haver uma pequena parcela de razão.
Em parte devido a esta promoção inconsequente, muitos inescrupulosos trataram
de aproveitar-se para ganhar dinheiro fácil utilizando o processo Gericke, colocando à
venda equipamentos e produtos enganosos, que provocaram, durante muitos anos, um
descrédito na Hidroponia.
Mesmo assim, as pesquisas continuaram, e logo, a Hidroponia passou a ter bases
científicas muito sólidas, mostrando-se uma ferramenta de grande futuro, especialmente
para a horticultura.
A nova técnica apresentava duas grandes vantagens: grandes produções em pequenas áreas, e o principal, permitia que se produzisse em áreas áridas, não agricultáveis, existentes em diversas partes do mundo.
Em 1936, W. F. Gericke, e J. R. Travernetti, ambos da Universidade da Califórnia,
publicaram um relatório final sôbre a cultura de tomateiros em solução aquosa de nutrientes, o que foi um grande sucesso.
A partir dêste relatório, numerosos agricultores, já agora munidos de melhores bases técnicas, começaram a experimentar o sistema. Ao mesmo tempo, numerosos pesquisadores e agrónomos de numerosas escolas, passaram a trabalhar no sentido de simplificá-lo e aperfeiçoá-lo.
Grande número de complexos hidroponicos foram construídos no México, Porto
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Rico, Hawai, Israel, e Índia. Nos Estados Unidos, já agora sem grande conhecimento
público através da imprensa, a Hidroponia tornou-se um grande negócio, e mais de quinhentas estufas foram instaladas para produções hidroponicas.
A técnica do Dr. Gericke provou, por si só, ser capaz de produzir alimentos para
tropas do exército americano acampadas nas ilhas desérticas do Pacífico.
A primeira grande vitória da hidroponia, veio quando a companhia de aviação Pan
American Airways, como já citamos, decidiu montar um complexo hidroponico na desértica Ilha Wake, no meio do Oceano Pacífico, para prover fornecimento regular de vegetais
frescos aos seus passageiros e funcionários.
É nesta altura, que o Ministério da Agricultura da Inglaterra, passou a ter interesse
na nova técnica agrícola, especialmente pelo seu potencial na campanha "Grow More Food", que levou a efeito na Segunda Grande Guerra, de 1939 a 1945.
Durante o ano de 1940, Robert B. e Alice P. Withrow, em seus trabalhos na Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, desenvolveram uma série de aperfeiçoamentos
no sistema de cultivo em cascalho, com regas intermitentes, o que o tornou muito mais
prático do que o sistema de Gericke.
Este sistema passou a ser conhecido como Cultivo em Cascalho.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o envio de vegetais frescos para postos ultramarinos nas ilhas do Pacífico, era demasiadamente caro e pouco prático, e as ilhas onde
se localizavam tais postos, eram desérticas, e inadequadas à agricultura.
Assim é que as Forças Armadas Americanas fizeram com que a Hidroponia passasse pelo seu maior teste de viabilidade, quando montaram em tais ilhas, várias instalações de tanques hidroponicos com cascalho, para produção de verduras.
As instalações foram perfeitamente aprovadas, e em 1945, resolveram o problema
de fornecimento de verduras frescas para tropas de ocupação, e tropas em trânsito.
Uma das várias instalações hidroponicas montadas pelo Exército Americano, foi na
Ilha de Ascensão no Atlântico Sul, região completamente árida, usada para descanso e
reabastecimento de tropas.
O pessoal permanente na ilha era bastante numeroso, dado que na mesma, também se fazia o serviço de manutenção de aviões. O suprimento de alimentos para este
local, era feito por via marítima e aérea, e a falta de vegetais frescos, era um problema
constante.
O refinamento da técnica hidroponica feito em Ascensão, serviu como base para
muitas outras instalações em várias ilhas do Pacífico, como Iwo-Jima e Okinawa.
Na ilha Wake, um "atoll" do Oceano Pacífico, a Oeste de Hawaii, onde já existia
uma instalação hidroponica da Pan American Airways, a Fôrça Aérea Americana construiu uma pequena instalação hidroponica em cascalho de rocha vulcânica britada, com 12
metros quadrados de área.
Na pequena instalação, produziam-se semanalmente 15 Kg de tomates, 10 Kg de
vagens, 20 Kg de espigas de milho verde, e 20 cabeças de alface.
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Manual de Hidroponia
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Nesta mesma época, o Ministério da Aeronáutica da Inglaterra, iniciou culturas hidroponicas em suas bases aéreas no deserto de Habbaniya, no Iraque, e na desértica
Ilha Bahrein, no Golfo Pérsico, onde estavam situados campos petrolíferos importantes.
Em Habbaniya, por exemplo, as verduras precisavam ser trazidas da Palestina, a
custos elevadíssimos.
Tanto o Exército Americano quanto a Real Fôrça Aérea Inglesa montaram suas
instalações hidroponicas, que produziram milhares de toneladas de vegetais, as quais
alimentaram milhares de militares.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o comando militar americano continuou a usar
a hidroponia, e criou um departamento interno especializado, que propiciou a produção de
4.000.000 Kg. de verduras e outros produtos vegetais durante 1952, um ano de pico na
demanda militar.
Estabeleceu também a maior instalação hidroponica do mundo (à época), num projeto de 22 hectares, na ilha de Chofu no Japão. É curiosa uma das razões que levaram a
esta instalação.
Era prática japonesa adubar suas hortas com dejetos humanos compostados, e
assim sendo, seu solo e suas verduras eram infestadas de amebas e várias outros vírus.
Curiosamente, o povo local era imune a tais infestações, provàvelmente por terem
seus organismos adaptados através dos séculos, ao contacto e ingestão dos causadores
dessas doenças gastrointestinais, o que não acontecia com os ocidentais.
Assim sendo, estes evitavam comer vegetais “in natura”, para evitar ditas doenças.
Como consequência, advinha-lhes a avitaminose, o que os obrigava a ingerir doses
maciças de vitaminas produzidas por processos industriais.
É sabido que sòmente cêrca de trinta por cento das vitaminas assim produzidas
são assimiladas pelo organismo humano, e este tratamento gerava custos exorbitantes,
os quais aumentavam ainda mais quando se traziam vegetais “in natura” de fontes muito
distantes para tentar resolver esta situação.
As hortas hidroponicas foram a solução barata.
Convém notar, que foi nesta época que os japoneses conheceram a hidroponia.
Certo é, que hoje temos imensas instalações no Japão, mas até bem pouco tempo
atrás, neste país ainda não se usavam técnicas muito atualizadas.
Estas instalações montadas então no Japão, além de produzir mudas de vegetais
para outras estações, produziam normalmente vegetais adultos para consumo. Ficaram
em operação ininterrupta por 15 anos.
Assim sendo, por fôrça da guerra, montaram-se as maiores instalações hidroponicas espalhadas pelo mundo, todas em cascalho, sendo que as melhor sucedidas foram
sempre as de bases isoladas, notàvelmete na Guiana, Iwo Jima e na ilha de Ascensão.
Depois da guerra, inúmeras instalações comerciais se espalharam pelo mundo e
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Manual de Hidroponia
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pelos Estados Unidos, especialmente na Flórida, a maioria a céu aberto, sujeitas aos rigores do tempo.
As construções deficientes e a falta de conhecimento técnico de operação, levaram
muitas delas ao insucesso, e a baixas produções. Mesmo assim, na época de 1950, o
uso comercial da hidroponia espalhou-se pelo mundo em paises como a Itália, Espanha,
França, Alemanha, Suécia, Rússia e Israel.
Um dos maiores problemas das primeiras instalações hidroponicas, vinha do concreto usado na construção dos tanques. O calcáreo resultante da cal e do cimento, dissolviam-se na solução de nutrientes, desequilibrando sua composição, e até mesmo destruindo-a completamente.
Além disso, os metais usados nas tubulações e válvulas, também afetavam as soluções, especialmente o Zinco e o Ferro utilizado nos tubos de Ferro galvanizado, que se
corroem fàcilmente, sendo que seus componentes entram na solução em teores de tal
forma elevados que se tornam tóxicos às plantas.
Mesmo assim o interesse nas culturas hidroponicas continuou, por muitas razões.
Primeiro, porque não havia necessidade de solo, e a população de plantas era muito mais concentrada, o que permitia grandes produções em áreas muito pequenas.
Segundo, porque quando operado acisadamente, com a maioria dos vegetais, se
consegue uma grande aceleração no desenvolvimento das plantas, e estas apresentam
um grau de qualidade muito mais elevado, em especial após colhidas, pois se conservam
durante muito mais tempo frescas, mantendo assim suas propriedades alimentícias.
Muitas companhias de mineração de petróleo montaram grandes hortas em suas
instalações, especialmente nas áreas desérticas, onde não há água no subsolo, e raríssimas ou nenhumas precipitações de chuva, sem condições, portanto, de culturas por métodos convencionais no solo. Montaram-nas também em ilhas desérticas, como no Caribe.
As instalações comerciais no Leste Americano atingiam na época mais de 40 hectares devotados à cultura de verduras para abastecimento de cidades, enquanto várias
companhias petrolíferas na Índia Ocidental, no Meio Oeste Americano, nas áreas desérticas da Península Arábica, e no deserto do Saara, encontraram na hidroponia a única maneira de proporcionar uma alimentação saudável e rica em verduras para seus funcionários.
O mesmo aconteceu com diversas companhias petrolíferas operando nas costas
da Venezuela, em Aruba, Curaçao e no Kuwait.
Ainda nos Estados Unidos, grandes instalações foram montadas em Illinois, Ohio,
Arizona, Indiana, Missouri e na Florida. Também foram montadas instalações no México
e na América Central.
Afora os grandes sistemas comerciais construídos entre 1945 e 1960, muito foi feito em pequenas instalações em apartamentos, casas e quintais, para plantar flores e verduras.
Muitas destas não foram um grande sucesso por causa de fatores diversos, como
substratos inconvenientes, uso de materiais de construção inadequados, especialmente
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Manual de Hidroponia
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nos tanques, e mau controle das condições de operação.
Mesmo com o insucesso em muitas instalações, todavia, plantadores de todo o
mundo estavam convencidos que seus problemas seriam resolvidos.
Tinham, na sua maioria, a convicção de que os aperfeiçoamentos nessa técnica,
estavam chegando a todos os momentos, e produzir comida era absolutamente essencial,
em vista do declínio da produção mundial, e da explosão demográfica.
Pesquisas mais recentes indicam que só nos Estados Unidos, temos mais de
1.000.000 de instalações caseiras em funcionamento produzindo verduras.
Rússia,
França, Canadá, África do Sul, Holanda, Japão, Austrália e Alemanha, estão entre os países que têm dado à hidroponia o lugar que merece.
E não é só. Entre 1930 e 1960, trabalho similar ao desenvolvido para produção de
alimentos humanos, foi efetuado para a produção de alimentos para animais domésticos.
Pesquisadores verificaram que era possível produzir grama para forragem animal a
partir de grãos germinados.
Usando grãos como cevada, aveia, centeio, trigo e milho, verificaram que 2,5 Kg
dêstes, podem ser convertidos em 18 Kg de erva fresca em apenas sete dias. Esta, usada como suplementação de rações convencionais, tornou-se altamente benéfica a animais e pássaros.
Usada para animais em lactação, a produção de leite aumenta em cerca de 30 por
cento, e a relação de conversão aumentou no mínimo em 20 por cento, a um custo menor
por Kg de grãos.
Em termos de reprodução, a potência dos machos, e a concepção das fêmeas aumenta assustadoramente. Nas granjas, a produção de ovos aumenta quase 40 por cento, ao passo que, simultaneamente desaparece o canibalismo, problema constante nestas
criações.
Aqui, novamente, houve necessidade de desenvolver um sistema que oferecesse
uma produção consistente, e novos problemas apareceram. Os primeiros sistemas não
tinham controle ambiental de temperatura e umidade.
Os fungos eram um problema constante nas gramas produzidas. Foi verificada a
necessidade de uso de grãos limpos, de alto grau de germinação, para se obter uma boa
relação de crescimento.
Mesmo assim, face a estes e outros obstáculos, graças ao trabalho contínuo de
pesquisadores dedicados, continuou-se a aperfeiçoar um sistema para produzir este precioso alimento de alta qualidade, e de forma contínua.
Assim sendo, com técnicas atuais, bom equipamento e bons materiais, hoje temos
unidades comerciais, que trabalham sem problemas. Muitos dêstes estão em pleno funcionamento em sítios, fazendas e em jardins zoológicos espalhados por todo o mundo.
A hidroponia só chegou à Índia nos idos de 1946. A primeira unidade de pesquisa
foi instalada na Fazenda Experimental do Governo de Bengala, em Kalimpong, no distrito
de Darjeeling.
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Tiveram que ser enfrentados muitos problemas peculiares a este sub-continente.
Os processos até então conhecidos e estudados, já em uso na América e na Inglaterra,
mostraram-se inadequados para uso geral no atendimento à população indiana, cheia de
peculiaridades.
Os equipamentos conhecidos e necessários eram caros, e portanto, proibitivos,
além de existirem problemas fisiológicos locais.
Um novo sistema, no qual a praticidade e simplicidade seriam pontos primordiais,
tinha que ser desenvolvido, para que a hidroponia tivesse sucesso em Bengala. Assim,
no período de 1946 a 1947, chegou-se a esse sistema conhecido hoje como o sistema
hidroponico de Bengala, que atingiu as necessidades específicas do povo indiano.
Hoje, com esse sistema simples e barato, milhares de agricultores produzem vegetais essenciais, nos telhados e quintais das casas, provando que o sistema é útil mesmo
em condições adversas.
Paises de todo o mundo parabenizaram os indianos pela sua assiduidade na pesquisa, e pelos resultados obtidos.
Porém, surge sempre a pergunta: Porque usar a hidroponia, se temos tanto solo
agricultável? Não é mais fácil melhorar os processos de manejo, os tipos de adubos, e o
uso mais difundido de compostagem orgânica?
E a grande conclusão: Afinal, os produtos hidroponicos em nada diferem dos obtidos convencionalmente em condições de solo ideais!!!
Estas afirmações trazem-nos à mente uma afirmação atribuída a Carlos II (Rei Carlos II, monarca Britânico de 1660 a 1685).
Enfatizando a diferença entre ele e seu irmão, o Duque de York (depois James II), consta que Charles disse "Jamie faria se pudesse, mas eu posso, e faço".
As críticas às culturas sem solo caem quase todas na categoria desta frase. Nenhum destes críticos atenta para o fato de que, para melhorar o solo da Índia, ou de qualquer outro pais semelhante, de forma a torná-lo agricultável, precisaríamos de 50 a 100
anos, se é que se conseguisse um solo ideal.
E, na verdade, onde podemos achar as tais condições de solo ideais?
Cultivar em estufas, usando solo, exige muita cautela e trabalho custoso, como periódica desinfecção do mesmo e da estrutura da estufa.
Além disso, para se conseguirem condições relativamente boas de iluminação, a
estufa deverá ser revestida de vidro, de termoplásticos ou de termofixos, sendo estes dois
últimos com o melhor grau de transparência possível.
Mesmo assim, periòdicamente, o solo deverá ser substituído, mesmo após se ter
levado a efeito a rotatividade de culturas. Só assim, em estufas, se pode, por curtos períodos, ter solos que se aproximam do ideal.
Há alguns anos a revista Forbes publicou um artigo intitulado "Suprimento de Alimentos - A Ajuda da Ciência Chegará a Tempo?". Neste artigo, a hidroponia é tida como
o maior acontecimento do século capaz de resolver ràpidamente o problema de alimentos
do mundo.
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Na mesma época, o jornal New York Times trazia um artigo intitulado "Hidroponia:
Um novo Capítulo na Tecnologia dos Alimentos", onde se afirmava que "nos últimos anos,
a hidroponia foi refinada a tal ponto, que é hoje um sistema comercialmente viável para
produzir alimentos".
Lendo artigos de jornais e revistas, qualquer um pode ser levado a acreditar que a
hidroponia é uma descoberta recente da tecnologia científica, predestinada a salvar o
mundo da fome. Sem dúvida, a hidroponia pode colaborar, e muito, na falta de alimentos, mas, de forma alguma é um novo desenvolvimento científico.
De fato, as primeiras plantas que se desenvolveram no nosso planeta, foram hidroponicas. Hoje, mais da metade das plantas para consumo “in natura”, produzem-se
hidropònicamente.
E ainda, as mais saudáveis e mais nutritivas plantas que existem
hoje, são hidroponicas.
Estamos falando, das plantas que se desenvolvem no corpo da água que cobre
mais de 70 por cento da superfície terrestre, nos lagos, rios e oceanos.
Não há solo nos oceanos. As plantas aquáticas marinhas retiram todos os nutrientes de que necessitam, da mais completa solução nutritiva que se conhece, a água do
mar.
Das instituições conhecidas que mais contribuíram para o desenvolvimento da técnica do cultivo sem solo, foram sem dúvida as Universidades de Illinois, Ohio, Purdue e
da Califórnia, nos Estados Unidos, a Universidade de Reading, na Grã Bretanha. No Canadá, a Fazenda Central Experimental, em Otawa.
Grandes empresas multinacionais também tiveram a sua participação, como a Imperial Chemical Industries Ltd. (ICI), que fez a adaptação da hidroponia às condições britânicas.
Outros pioneiros da hidroponia foram o Boyce Thompson Institute for Plant Research, em New York, a New Jersey Agriculture Experimental Station, o Alabama Polytechnic
Institute e a Horticultural Experimental Station, em Naaldwijk - Holanda.
Hoje, a hidroponia é uma técnica agrícola já bem definida, mas as pesquisas e estudos não param. Variantes do processo continuam sendo testadas e aperfeiçoadas.
Mas, não se tem dado folga aos pesquisadores e cientistas.
Por exemplo, as indústrias de estufas da Inglaterra, frente aos custos elevados das
instalações, além do conhecimento técnico exigido para fazê-las funcionar a contento,
clamavam por um sistema de mais fácil operação, e de menor custo inicial de montagem.
Assim foi que, no Glasshouse Crops Research Institute em Little Hampton no sul
da Inglaterra, reuniu-se uma equipe de pesquisadores comandada pelo Dr. Allen Cooper.
Este grupo de cientistas estava plenamente convicto de que a hidroponia era algo
comercialmente viável, e dele surgiu, por meados de l975, um sistema que revolucionou a
hidroponia: o NFT - Nutrient Film Technique ou Nutrient Flow Technique.
O Dr. Cooper descreve minuciosamente todos os detalhes do sistema no eu livro
“The ABC of NFT”, editado em vários paises do mundo.
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Este sistema não foi resultado de uma experiência que deu certo.
em conceitos muito profundos de nutrição e fisiologia das plantas.
Ele se baseia
Alem disso, nele o Dr. Coopper colocou em prática uma série de conceitos próprios
que quebram uma série de mitos criados à volta das plantas, como, por exemplo, o de
que “as plantas são seres vivos perfeitos, pois alimentam-se do que lhes é estritamente
necessário, não necessitando de dejetar, pelo que não possuem nem necessitam de um
sistema excretor”. O Dr. Coopper tem provado que isto é um mito
A característica principal do Sistema Hidroponico NFT, é o baixíssimo custo inicial
de instalação, aliado a um manejo extremamente simples e também de baixo custo.
Fig. 1.43 Dr. Allen Coopper (aos 83 anos de idade)
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Manual de Hidroponia
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Da Inglaterra, onde se difundiu rápida e assustadoramente, expandiu-se para o
mundo, tendo sido a Nova Zelândia e a Austrália, os paises bandeira na sua adoção e
subsequente adaptação para a maioria das plantas.
O sistema tem as suas limitações e dependências, porém estas têm sido superadas ràpidamente, e consequência disto, tem dado margem a muitas variações, que às
vezes chegam até a deturpar parcialmente o seu princípio básico de funcionamento.
A maior limitação dêste sistema, é a completa dependência de energia elétrica.
Hoje, cêrca de oitenta ou mais por cento das verduras produzidas por hidroponia,
são-no pelo Sistema Hidroponico NFT.
Como sugere o nome do sistema, seu princípio de funcionamento baseia-se na
alimentação das plantas através de um filme bastante fino de solução nutritiva, que corre
de forma contínua, ou em períodos determinados, através das raízes das plantas.
Ao escrevermos estas linhas, o Dr. Cooper está com 83 anos de idade, e ainda
continua pesquisando e desenvolvendo um novo sistema NFT, onde não é necessário
usar-se a energia elétrica.
Fig. 1.44 Dr. Franco Massantini
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Não poderíamos aqui deixar de citar o trabalho realizado Dr. Franco Massantini, da
Universidade de Pisa na Itália, pai da hoje denominada Aeroponia.
Massantini idealizou um processo, pelo qual as plantas ficam com as raízes suspensas no ar, e estas são alimentadas com uma solução nutritiva que é periòdicamente
aspergida sobre as mesmas, por meio de microaspersores.
O sistema de Massantini constituiu na verdade, um verdadeiro marco na redução
de custos de consumo de energia e instalações.
As instalações do processo são muito baratas, e o que é muito importante, por não
serem ligadas rigidamente às estufas, são fàcilmente móveis e adaptáveis a vários tipos
de cultura.
Pode dizer-se que a Aeroponia como é hoje conhecido o sistema de Massantini,
ainda está engatinhando, e muito ainda deve ser pesquisado e adaptado ao processo.
Pelo Sistema Aeroponico, hoje cultivam-se comercialmente desde plantas folhosas
para temperos e saladas, a frutos como tomates e pepinos, e tubérculos, como batatas.
Tomamos a liberdade para vislumbrar que, a Aeroponia, dentro de pouco tempo,
irá, provàvelmente, substituir em quase ou mais da metade o Sistema NFT.
1.3 - O PRESENTE
Com o desenvolvimento dos plásticos, a hidroponia teve um dos seus maiores
crescimentos.
Na verdade, se existe algum fator a quem por si só se deve creditar o grande sucesso da indústria hidroponica de hoje, ele o desenvolvimento dos plásticos
Como já foi mencionado, um dos maiores problemas que se encontravam em todas
as instalações hidroponicas era a constante dissolução dos materiais usados na construção das mesmas, como concreto, tubulação de ferro galvanizado e o próprio material de
suporte das raízes, na solução de nutrientes.
Com o advento do "fiberglass" (resinas reforçadas com fibra de vidro), bem como
diferentes tipos de plásticos vinilicos, filmes de polietileno, e os diversos tipos de tubos
plásticos, estes problemas foram virtualmente eliminados.
Nos melhores sistemas de produção construídos hoje pelo mundo afora, os plásticos são usados em toda a sua extensão, e podemos dizer que nelas não existem metais.
Até as bombas de água são revestidas com resinas epóxi, ou inteiramente fabricadas com estas. Usando tais materiais, e materiais inertes para meios de enraizamento, o
hidroponista estará no caminho certo para o sucesso.
Os plásticos libertaram os produtores das construções dispendiosas dos tanques
prèviamente usados. Bastará para tanto, escavar no solo existente, revestir o buraco
com filme de vinil, e enchê-lo com meio de enraizamento.
Pelo desenvolvimento de bombas adequadas, controladores de tempo, tubulações
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de plástico, válvulas solenóide e outros equipamentos, todo o sistema hidroponico pode
hoje ser automatizado, e mesmo computadorizado, reduzindo tanto o capital investido,
quanto os custos operacionais.
Uma premissa básica que se deve ter em mente sôbre a hidroponia, é a sua simplicidade.
Depois da invenção da roda, muitos ficaram confusos, e pensaram que era algo
muito complicado.
Foi porque não puderam imaginar de imediato, quanto trabalho ela lhes pouparia.
É assim com a hidroponia.
Conquistando a idéia, poderemos verificar que é algo...SIMPLES!
Outro marco conquistado na hidroponia foi o desenvolvimento de composições de
nutrientes completamente equilibradas. Nesta área o trabalho ainda continua, mas, no
entanto, já se encontram no mercado muitas fórmulas prontas.
A maioria é boa, mas sòmente algumas, se é que existe alguma, funcionará corretamente sem o uso de adições durante os vários estágios de desenvolvimento das plantas, mas, para a maioria dos produtores, ainda é melhor começar por uma delas.
Adicionalmente à velocidade do progresso em função do uso de plásticos, e ao lento crescimento devido às misturas de nutrientes, um outro fator de grande importância
para o futuro da indústria da hidroponia, foi o desenvolvimento de equipamentos de controle do ambiente das estufas.
No início, quase todas as estufas, quando necessário, eram aquecidas por sistemas a vapor, e o custo dêstes equipamentos era uma grande barreira à entrada de pequenos produtores nesta área.
Com o advento de aquecedores de alta velocidade, que usam gás ou óleos leves,
foi possível construir unidades de aquecimento muito menores, de alto rendimento, e muito mais baratas.
Além disso, o uso de gás liquefeito de petróleo (GLP), tornou estas unidades fàcilmente móveis, permitindo instalar-se uma estufa em qualquer lugar.
Mesmo assim, em grandes instalações, usar caldeiras ainda é a opção mais economica. Da mesma forma que os equipamentos de aquecimento, também houve grande
desenvolvimento nas unidades de resfriamento.
Ainda no que tange a estufas, o uso de novos materiais, como filmes de polietileno
e de vinil, bem como placas de fiberglass, permitiram técnicas completamente novas na
construção das mesmas, reduzindo dràsticamente seus custos de fabricação.
Hoje é possível construirem-se estufas de qualquer tamanho e ou formato, a preços bastante acessíveis.
Alguns destes materiais têm apenas a durabilidade correspondente a uma safra.
Outros têm garantias de até 20 anos contra o escurecimento, que causa perdas de luz, e
contra rachaduras causadas pelo granizo. Com os novos materiais, apesar dos danos à
cobertura, quase não há danos às culturas.
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Mas, pelo uso de filmes finos demais, ou mesmo de vidro, quando houver danos às
coberturas, inevitàvelmente teremos perdas de culturas, às vezes, perdas totais. Os filmes são bons para coberturas temporárias ou semitemporárias.
Alguns materiais de cobertura, hoje, proporcionam difusão de luz, que para as culturas é muito importante e benéfico.
A combinação dos controles de ambiente, bem como o desenvolvimento dos sistemas hidroponicos, têm nestes últimos 20 anos, sido motivo de grande crescimento de
indústrias paralelas a eles ligados, e com isso, poderemos estar certos de que, no futuro,
a hidroponia representará um grande papel na alimentação do mundo.
A hidroponia tornou-se uma realidade para os produtores em estufas, em regiões
de qualquer clima. Hoje, temos instalações hidroponicas espalhadas pelos quatro cantos
do mundo, e muitas delas, em regiões onde jamais se imaginaria que uma planta pudesse
nascer, crescer, florir e frutificar.
O crescimento desmesurado dos grandes centros urbanos tem paulatinamente diminuído as terras de solos férteis à volta dos mesmos, empurrando as suas fontes de fornecimento de alimentos para distancias cada vez maiores.
Isto tem tornando tais alimentos cada vez mais caros, devido não só às grandes
distancias que têm que percorrer, como também aos custos de sua conservação.
Dada a característica da hidroponia, de elevados graus de produção em áreas reduzidíssimas, sem haver necessidade de solo, até nas coberturas de prédios das grandes
cidades, poderá produzir-se uma notável quantidade de alimentos. E isto já é uma realidade.
Só precisamos de eletricidade, às vezes combustível, e pequenas quantidades de
água (1/25 da água normalmente necessária em culturas em solo). E teremos alimentos
exatamente dentro dos centros consumidores.
Hoje, temos hortas hidroponicas instaladas nos submarinos nucleares, nas estações espaciais, e nas estações marítimas de perfuração de poços petróleo, sem falar nos
grandes jardins zoológicos, que mantêm saudáveis grande parte de seus animais, graças
à erva hidroponica produzida dentro suas próprias instalações.
Temos hoje grandes e pequenas instalações usadas por companhias ou por pessoas em suas próprias residências. Até na ilha de Baffin e no Eskimo Point no Ártico Canadense. Produtores comerciais usam esta maravilhosa técnica para produzir alimentos
em larga escala, desde Israel até à Índia, da Arménia ao Saara.
Existem instalações junto ao mar, usando água dêste, desalinizada, e mesmo em
áreas desérticas, usando águas salobras tratadas. Se existe uma indústria no mundo
cuja hora de sucesso chegou, é a da HIDROPONIA.
Porquê produzir alimentos? Há muitas e boas razões. Nos nossos grandes centros consumidores, o alimento é algo tido como garantido, embora alguns itens dêste, não
há muitos anos, seja por necessidade, ou por passa-tempo, muitas famílias o produziam
de modo caseiro.
Porém, desde há alguns anos, é fácil ir-se ao supermercado, e comprar o necessário, na maioria das vezes não importando o preço, e para a maioria não pesando muito o
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melhor ou pior paladar, o maior ou menor índice nutricional.
Quanto a vegetais frescos, sendo grandes e bonitos, podendo ser comprados a
preços razoáveis, nada mais importava.
Mas, nestes últimos anos, as coisas estão mudando. O consumidor está mais interessado nos custos, e mais ainda, preocupado com o paladar e o índice nutricional dos
alimentos que dá à sua família.
Paises como as Ilhas Canárias, equilibram sua economia anual, exportando grandes quantidades de tomates, pepinos e verduras hidroponicas, para países industrializados, como a Inglaterra. O Caribe, Porto Rico e México, embarcam grandes quantidades
de frutas e verduras hidroponicas, para os mercados dos Estados Unidos e Canadá.
Na Inglaterra, Alemanha, França, Holanda e Suíça, empresas produtoras de flores,
preferem usar a hidroponia com fins comerciais, especialmente para a produção de cravos e outras espécies florais.
No Colorado - EUA, e estados vizinhos, produzem-se extensivamente rosas para
exportação. Nos Estados Unidos, sòmente na área de produção de flores, em 1971, exportaram-se 21 milhões de dólares.
Na Rússia, a cultura sem solo tem sido considerada uma bio-indústria, posicionada
entre a agricultura e o sistema industrial.
Outros paises, alguns dos quais ainda não mencionamos, e onde a hidroponia é
extensivamente usada, incluem a Espanha, África do Sul, Israel, particularmente no deserto de Negev e ao longo do Mar Morto, Itália, Escandinávia, Bahamas, África Central,
África Oriental, Kuwait, Brasil, Polonia, Seychelles, Cingapura, Malásia e Iran.
Esta lista é incompleta, e não é tão extensa, mas ela pode dar a idéia real de quanto a hidroponia está hoje espalhada pelo mundo.
A cada dia que passa, mais e mais pessoas têm que ser alimentadas, e por incrível
que pareça, as áreas agricultáveis, desta ou daquela maneira, vão diminuindo, bem como
vão diminuindo os agricultores, seja pelo mau retorno financeiro do seu trabalho, seja pela
fascinação que os grandes centros urbanos exerce sôbre os mais humildes dentre eles.
A continuar assim, acreditamos que a demanda por alimentos sobreporá, algum
dia, nossa capacidade de produzi-los, como já aconteceu no passado.
Quem sabe se não teremos que recorrer a regimes de dieta, ou pelo menos, a programas para reduzir ou eliminar nosso desperdício alimentar, como tivemos para economia de energia desde a crise do petróleo.
Não queremos alarmar ninguém, nem prever uma catástrofe. Acreditamos que
ninguém irá passar fome, mas teremos que rever nossa posição quanto ao poder nutritivo
de nossos alimentos, para que menores volumes dêstes, alimentem maior número de seres humanos.
E, quanto custarão esses alimentos, quando comparados aos nossos rendimentos
mensais?
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Não há muitos anos que na cidade de São Paulo - Brasil, por exemplo, nosso cinturão verde não distava mais do que 25 ou 30 Km do centro geográfico da Cidade, a qual
estava cercada de horticultores.
Tínhamos produtores locais com abundância de verduras, de leite, de frangos, de
ovos, que vinham a nossas casas. Podíamos escolher à vontade, e se não gostássemos
podíamos reclamar, ou comprar de outro.
Nesse tempo, alimento "fresco", era fresco mesmo, e os produtores locais, não eram conhecedores de técnicas como são hoje. Os produtos frescos eram oferecidos à
porta de nossas casas, e jamais pensaríamos em comprá-los congelados ou enlatados,
se é que tal passava pelo nosso pensamento.
Hoje o quadro que se nos apresenta é bem diferente. Os produtores locais desapareceram. Temos hoje grandes produtores centralizados em grandes propriedades agrícolas, e grandes empresas beneficiadoras de alimentos junto com ... produtos químicos
conservantes.
Não é o alimento que "tem química". São os agentes conservantes adicionados
aos mesmos que são constituídos por produtos químicos, que segundo garantem autoridades sanitárias são inócuos à nossa saúde. Serão mesmo?
Não podemos mais ignorar a escassez de alimentos no mundo. Precisamos produzir alimentos em quantidades cada vez maiores, em áreas cada vez menores, e para
isso, teremos que nos oferecer para alguns sacrifícios.
Teremos que sacrificar os alimentos "frescos", e deixar de usar ou ter oferta dos
"realmente frescos". Teremos provàvelmente menor controle de qualidade alimentar,
maiores custos, e certamente maiores rações de alimentos em conserva.
Dos alimentos hoje produzidos, consideremos as perdas. Cêrca de 20 ou 30 por
cento deles, são perdidos no campo. Adicionemos a isto, custos cada vez mais altos de
embalagem, armazenamento, preservação e transporte, e o resultado é claro. Precisamos produzir muito mais, para conservar mais ainda.
A hidroponia não é "A SOLUÇÃO", mas é "UMA SOLUÇÃO" dentre muitas.
Falamos até aqui, de produtos vegetais. Falemos de produção animal, de leite e
seus derivados, de frangos, de ovos, de carne bovina e outras.
O método hidroponico conhecido como Herbagère, inventado pelo botânico belga
Gaston Perin, está hoje cada vez mais difundido pelo mundo. Esta técnica baseia-se na
germinação de grãos em bandejas, mantidas em câmaras climatizadas.
Por ela, produzem-se vários tipos de forragens para alimentação de gado e aves, e
tem sido bastante usada também na alimentação de animais herbívoros em zoológicos.
O ciclo de produção de forragem com grãos de cevada é de sete dias, e a razão de
conversão, chega a atingir 1:10, ou seja, 1 Kg de grãos, fornece 10 Kg de forragem.
Num espaço de 25 metros quadrados, podem produzir-se diàriamente 450 Kg de erva
fresca.
Também plantas perenes, se produzem hidropònicamente, como alfafa e outras.
Produzir alfafa de boa qualidade, no solo, é uma tarefa hercúlea. Mas, hidropònicamente,
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consideradas primeiramente as peculiaridades da técnica, é algo extremamente fácil.
E aquela plantinha chamada "confrey"? No solo, é uma praga que pode infestá-lo
como se fora uma erva daninha, porém as aves, em especial galinhas, gostam dela de tal
maneira, que entram em desespero ao sentirem seu odor a 20 ou 30 metros de distância.
Produzi-la hidropònicamente, jamais será uma praga, e é tão fácil quanto produzir
uma cabeça de alface. Quanto ao seu poder alimentício, sem considerar suas características medicinais, bem, perguntemos aos russos, que alimentam seus plantéis quase só
com ela.
Perguntamos agora novamente, "Porquê produzir alimentos?
tenham achado a resposta nestas linhas”.
Acreditamos que
1.4 - O FUTURO
A hidroponia é uma ciência jovem. Muitos autores e pesquisadores, consideram-na uma Ciência. Está sendo usada comercialmente, apenas há pouco mais de 70 anos.
Todavia, mesmo neste curto período de tempo, foi adaptada às mais diversas situações, desde cultura ao ar livre, em estufas, e até em culturas especializadas em submarinos nucleares para obter vegetais frescos para tripulações.
É uma ciência da era espacial, e, no entanto, pode ser usada em paises subdesenvolvidos do terceiro mundo, para produzir grandes quantidades de alimentos em
áreas reduzidas.
Suas únicas restrições são água limpa, nutrientes e às vezes energia elétrica.
Onde não houver água potável, a hidroponia pode usar água salobra ou água do mar desalinizada. Onde não houver nutrientes, pode usar os extraídos de dejetos animais tratados em biodigestores.
Assim sendo tem enorme potencial de aplicação no provimento de alimentos em
áreas de terras não agricultáveis, como são os desertos.
Os complexos hidroponicos podem ser localizados ao longo das costas marinhas,
combinados com unidades desalinizadoras alimentadas por combustíveis vários ou por
energia atomica, e até usando a areia das praias como substrato para enraizamento.
Outra área onde a hidroponia promete desempenhar um grande e importante papel
é na produção de mudas de árvores para reflorestamento, para pomares e para arbustos
ornamentais.
Em reportagens publicadas já em 1966, pesquisadores da Universidade de Wisconsin declararam que estavam germinando sementes de cedro branco, abeto, pinho
vermelho e outras, pelo sistema hidroponico.
O resultado da experiência mostrou que, em um ano, as mudas se desenvolveram
de três a quatro vezes mais do que em sistemas convencionais no solo.
E ainda, que numa só estação, nesta região, em função da alta concentração de
plantas por unidade de área, produziram-se hidropònicamente, dez vezes mais mudas do
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que por processos convencionais.
Não só a hidroponia possibilita a produção de alimentos em áreas desérticas, como
também o faz em regiões de pequena extensão e com elevada densidade populacional.
Típico desta situação é o Hawai, onde as estações turísticas reduziram drásticamente as poucas áreas agricultáveis, além de em função da população de turistas, elevarse violentamente a densidade populacional.
Mas, continuam a existir problemas que freiam o desenvolvimento da hidroponia
como um todo. Um deles é a atitude negativa de diretores, mestres, e pessoas de elevada posição nas nossas escolas e universidades agrícolas e nos diversos departamentos
de governos.
Essas atitudes vão desde o total desinteresse até à hostilidade declarada.
E são na maioria, resultado de sua relutância em aceitar ou mesmo estudar, sistemas que podem conflitar com suas tradições. Enfim procura destruir-se o que não se
conhece.
Mas, por esse mundo fora, felizmente, existem pessoas que não só têm mentes
abertas, mas também são generosas o suficiente para auxiliar os produtores a instalar
seus complexos hidroponicos.
Outro problema, especialmente em áreas de clima frio, ou de invernos rigorosos, se
desenvolveu nestes últimos anos, com os aumentos consecutivos nos custos da energia.
Mas, nestes casos, uma luz vem surgindo no fundo do túnel, com os equipamentos
de aquecimento solar. Muito ainda tem que ser feito e pesquisado neste sentido, mas já
existem unidades para esta finalidade disponíveis no mercado.
Também têm surgido publicações com detalhes de projeto e construção para que
as unidades solares possam ser fabricadas pelo usuário.
Existem planos para o uso da hidroponia em vôos espaciais, e mesmo para instalação de unidades na Lua, ou mais além.
Para a Hidroponia, o futuro parece ser luminoso.
O maior perigo no crescimento e desenvolvimento da hidroponia, tem sido os oportunistas de momento que apareceram nos últimos anos.
O sucesso de muitos produtores, com instalações e equipamentos devidamente
projetados e selecionados, tem atraído esses "auto intitulados especialistas e ou autoridades", que cada vez aparecem em maior número, até dentro de Universidades.
Fazendo reivindicações de créditos a seu favor, têm vendido acessorias e instalações ultrapassadas, além de cópias mal feitas de unidades que já funcionaram sabe-se lá
como, assegurando que esse é o caminho fácil para ganhar dinheiro.
Essas promoções e propagandas, têm tido pouca duração, mas, infeliz e maldosamente outros continuam a aparecer.
O custo de uma instalação para o futuro produtor, devidamente idealizada e proje98
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tada com bases num bom controle de ambiente em estufa, pode atingir alguns milhares
de reais.
Porisso, ao futuro hidroponista, é recomendável que verifique com cautela as propagandas que aparecem, exigindo comprovações aos vendedores, inclusive de sua capacidade profissional, exibição de instalações já feitas e em franca produção, capacitação
de pesquisa, e informações sobre o passado da empresa fornecedora.
Para aqueles que desejarem montar a sua própria instalação, desenvolvendo seu
próprio projeto, o que hoje no nosso país ainda é recomendável senão necessário, lembrem-se que um principiante sem nenhuma experiência em agricultura, pode produzir através da hidroponia com bastante sucesso.
Terá algumas dificuldades? Sim, mas onde elas não existem? Acreditem, aquele
que tiver uma pequena estufa de 3 x 4 metros, com o sistema hidroponico, poderá produzir todos os vegetais frescos para uma família de quatro ou cinco pessoas, uma vez que
mantenha a sua produção durante todos os dias do ano. E isso é fácil.
A hidroponia é altamente rentável comercialmente, se o produtor dedicar a ela o
tempo e a atenção que qualquer negócio exige.
Quer produzir tomates? A produção destes frutos por hidroponia, é 18 vezes maior do que pelos processos convencionais em solo. Será muito difícil ter que usar um agrotóxico na sua produção.
A hidroponia é algo fascinante. Experimente, e verá quão gratificante é ver suas
plantas nascerem, crescerem e frutificarem, e depois, enfeitarem sua mesa, e finalmente,
deleitarem seu paladar e apetite.
E, o que ainda é mais importante, poder dizer, "Eu plantei, e eu colhi".
Poderá então o leitor confirmar o que dizia em seus relatórios ao rei, aquele padre
que aportou no Brasil com os descobridores, - " Majestade, nesta terra, em se plantando,
tudo dá ". Só é preciso plantar. Plantemos pois.
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